Hoje um rapaz que estava na padaria da esquina pediu o seu
café matinal, um pão na chapa com manteiga e um jornal. Enquanto o café preto
esfriava, e depois da primeira mordida na metade do pão, o homem deixou de lado
a maioria daquelas folhas e deu a sua atenção exclusivamente à página policial
do periódico.
As notícias estavam espremidas, eram muitas para pouco
espaço. Uma única página não dava conta de tantos fatos. Assassinatos em cima.
Latrocínios embaixo. Sequestros no meio. Traficantes presos no canto.
Enquanto lia aquelas pautas, o cara de uns 30 anos ou mais,
vestido de terno e gravata, com barba a fazer, algumas vezes mostrava
indignação, balançando a cabeça de um lado para o outro, outras vezes, soltava
um sorriso sem graça e comentava a notícia com a moça que estava ao lado, saboreando
um cappuccino com morango. Uma bela mulher, que disse: “este País está perdido”.
Ele dobrou a página 5 e a colocou debaixo do braço, pegou a
pasta preta que carregava, pagou a conta e saiu. O homem esqueceu mesmo das
outras páginas do jornal. Deixou de lado, então, notícias que certamente são
mais importantes do que prisões. Não ficou sabendo da greve dos caminhoneiros,
do preço da gasolina e nem ao menos o que vai acontecer na novela das 21h.
Eu também fui embora. Cheguei em casa e liguei o rádio para
ouvir o noticiário da manhã. O âncora falava do mato alto e do buraco na rua. Achei
estranho quando ouvi o repórter incentivando o munícipe entrevistado a
discordar de qualquer atitude dos responsáveis pela cidade, ele queria mesmo
era polemizar. Nenhuma crítica construtiva para contar história. Aproveitei
para sair daquela frequência... E não voltei mais!
Resolvi acessar as redes sociais e os sites de notícias.
Percebi que a matéria que estava na página policial do jornal era a mesma que
contava com ilustrações no noticiário virtual. A rede social denunciava que
aquela era a principal notícia do dia. Homem morto, traficante preso. O jornal
da TV, então, nem se fale. Era a mesma manchete do começo ao fim.