Quando ela se cansou de esperar, levantou, pegou sua bolsa
de grife preta com detalhes dourados, comprada no Braz, juntou o seu orgulho e
decidiu ir embora. Havia tomado um copo d’agua gelada para aliviar a ansiedade.
Seus dentes, meio sensíveis, chegaram a gemer. O calafrio subiu às espinhas, e
a marca do batom avermelhado fixou-se naquela taça de um vidro caro qualquer.
As marcas de seus lábios denunciavam a insatisfação de estar
ali, sozinha, perdida na ilusão da espera. Não aguentava mais. Olhou e desolhou
o cardápio dezenas de vezes. Chamara a atenção alguns gourmets caros, em
especial o denominado ‘Lagosta ao Thermidor’. Na descrição dizia que a lagosta
viria gratinada na própria casca, com molho bechamel; um acompanhamento de purê
de batatas, que na apresentação do prato serve de base para montar a lagosta.
Nunca havia comido uma lagosta, sequer uma casquinha de
siri. No máximo uma sardinha gratinada na farinha de rosca e bem frita, que a fazia
lamber os dedos no fim de semana, na casa da avó materna. Mas, naquele lugar o
seu pedido era a ‘Lagosta ao Thermidor’.
Com o que tinha no bolso não pagava nem o serviço da
cozinheira. Mas, não era ela o banco da noite. Pode ser que quando a Lagosta
chegasse se transformaria em um bicho de sete cabeças, e ela não saberia nem
por onde começar a degustação. Mas, daqueles pratos descritos no cardápio
preto, com capa aveludada e linhas pratas finas, era o único nome que soava
familiar.
Os casais iam chegando. Mulheres pomposas, com vestidos longos
e chamativos, nariz empinado, salto alto de dar dor nas juntas no dia seguinte,
e um ar de esnobe a qualquer cidadão comum que ousava cumprimenta-las com um
boa noite. Eram seguidas por homens de barba feita, e velhos parecidos com
políticos, de gravatas borboletas e terno espremido, lembrando um pinguim ao
caminhar.
Os sorrisos falsos e as falsas conversas rodeavam por todo
aquele ambiente caro. Ela ainda estava insatisfeita. Esqueceu o celular no
táxi, como já havia feito outras três vezes, não tinha, então, contato com o
mundo lá fora. Baseava sua paciência pelo relógio de ouro maciço que era
embutido na parede de sua frente.
Já fazia meia hora e nada. Tudo bem. Uma garoa fina que caia
pelas ruas da cidade atrapalhava o intenso trânsito. Ouvira no rádio do taxista
que a greve do metrô continuava a toda, e apenas alguns ônibus ainda circulavam
pela cidade. Era difícil chegar a qualquer lugar. É de se entender o atraso.
Talvez o seu celular esteja vibrando como um louco no banco
do passageiro do carro amarelo. Ou então a associação dos taxistas já viu todas
as fotos que ela costuma tirar depois de uma boa noite de prazer. Se aqueles
homens sedentos conseguirem abrir a pasta de vídeos, então... sua reputação de
mulher respeitada desceria a ladeira. Mas, ainda não era hora de pensar nisso.
Estava se sentindo mal. De todas as mesas do lugar apenas
aquela servia uma pessoa. As mulheres estavam todas acompanhadas, e ela
disfarçava com um sorriso amarelo, mentindo que seu parceiro foi ao toilet ou conversar com o gerente do
restaurante. Na verdade, ela estava sozinha ali há uma hora.
Os garçons andavam a sua volta, esperando a decisão pelo
jantar. Alguns deles já comentavam entre si que aquela bela foi passada para
trás na noite fria e chuvosa, propícia para um jantar à dois. Ainda assim, ela
conseguia manter a sua pose.
Agora, já enganava a si mesma. Percebeu, enfim, que
terminaria a noite sozinha, no cachorro quente da esquina. A lagosta ficaria em
seus sonhos, quem sabe um outro dia.
O batom paraguaio desbotava em seus carnudos lábios. Seus
dentes brancos e seu sorriso largo se despediram por instantes. A mulher feliz
e esperançosa por uma noite de amor sem fim entre quatro paredes, depois de um
jantar à luz de velas com vinhos caros e pratos chiques, essa mulher se desfez.
Passeando sozinha pelas ruas da cidade grande, olhava as
estrelas e ia embora andando até a sua casa. Não era tão longe assim. Cansou
dos saltos, que já estavam em suas mãos. A garoa fina molhava seu corpo e os
seus sentimentos apaixonados. Por vezes as gotas do céu se juntavam às do seu
rosto, e unidas tocavam juntas o chão.
Deixou pra lá o cachorro quente. A tristeza matou a sua
fome.
Abriu a porta da casa, que fazia um rangido chato e lento.
Não acendeu as luzes. O silêncio daqueles cômodos quietos era ensurdecedor.
Deixou os sapatos pelo chão, e o casaco vermelho também. De pés sujos e orgulho
ferido, deitou na cama grande e abandonada.
Sentiu um cheiro familiar. O perfume que a encantava e
aflorava seus desejos mais amorosos possíveis. Saiu da escuridão quando ligou a
luz fraca do abajur, que iluminou a foto de cabeceira. Ela e seu amante,
namorado, marido. Abraçados em um dia feliz numa hora qualquer. Hoje, ele a
abandonou. Ontem também.
A mulher viva e contente, que dizia bom dia aos vizinhos e
esbanjava carisma, agora está morta. Se foi com seu amor, que morreu de coração
há alguns meses. A deixou sozinha, sem pudor, sem razão e sem alma.
Ela ainda não se acostumou com a ideia. Toda semana sentava
na mesa do restaurante caro, aquele mesmo que ouviu o pedido de casamento,
olhava o mesmo cardápio, gravava seus lábios no mesmo copo, acendia as mesmas
velas. E ia embora para a solidão.
