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19 de jan. de 2016

A exótica beleza das pessoas que amam



Ele acordou pela manhã, quase tarde, olhou para o lado e viu um par de olhos negros fechados, um respirar profundo, sentiu um ar de beleza pouco comum em qualquer canto da cidade.
Ainda naquela manhã, quase tarde, sentou à mesa depois de planejar um café forte com frutas amargas. Sentiu que o café estava doce, assim como as frutas, que de amargas não tinham nada. Sorriu ao ouvir um bom dia daquela voz delicada.
Saiu para trabalhar atrasado, mas não tinha problema. Deixou para trás a saudade de segundos. Entrou no elevador cantarolando uma música que nunca tinha escutado. Virou compositor. Deu um abraço no porteiro do prédio, o mesmo que ele ignorava no resto dos dias da semana.
O terno e a gravata hoje não o incomodavam, apenas o faziam ficar mais apresentável. Chegou a seu destino. Preencheu relatórios, fez pesquisas, reuniões, foi promovido, por engano. Foi rebaixado, ouviu críticas, sugestões. Xingou o chefe, foi demitido. Jogou o terno e a gravata no lixo da sala, foi embora com um sorriso de orelha a orelha. Seus dez anos de empresa não se justificaram. Ninguém daquele escritório entendeu.
No caminho de volta à felicidade a chuva apareceu. Como no filme da semana passada, ele não viu problemas. Abriu os braços. Enquanto as pessoas em volta corriam atrás de abrigo, ele, sem terno e gravata, sentia as águas do céu e caminhava lentamente de volta para casa.
Viu o vendedor de flores parado na esquina. Comprou violetas; rosas tinham espinhos e eram muito comuns. E agora, com as cores do arco-íris indicando seu caminho, ele prosseguia saltitante ao final feliz.
Cumprimentou a vizinha chata. Fez carinho no cachorro bravo. Felicitou o carteiro. Deu adeus ao seu João e um sorvete à menina. Molhado, feliz, sorrindo, gripado, com um amor que acendia seus olhos.
Abriu a porta, colocou as violetas em cima da mesa, gritou para seu amor, ninguém respondeu. Procurou na sala, nada. No quarto, nada. Nos fundos, apenas o varal. No banheiro não estava. Na cozinha estava apenas um papel grudado na geladeira. Se sentiu aliviado, desfez a cara de susto.
Começou a ler:
“Olá. Foi um imenso prazer ficar com você. Desculpa se te fiz perder a hora do trabalho, acho que dormimos demais (também, depois de uma noite daquela...). A comida estava ótima. A sua companhia é bem agradável. Adorei te conhecer. Mas agora vou voltar para meu mundo e conhecer outras camas. Te fiz um desconto, o troco está em cima da mesa. Ah, essa semana estou com a agenda cheia, mas quando quiser me liga, o meu celular continua o mesmo. Beijos, felicidades”.
Então ele amassou o bilhete e jogou pela janela. Voltou para sua rotina triste. No outro dia saiu para procurar emprego, sem cumprimentar o porteiro.

3 de jul. de 2015

Um jantar à luz de Velas


Quando ela se cansou de esperar, levantou, pegou sua bolsa de grife preta com detalhes dourados, comprada no Braz, juntou o seu orgulho e decidiu ir embora. Havia tomado um copo d’agua gelada para aliviar a ansiedade. Seus dentes, meio sensíveis, chegaram a gemer. O calafrio subiu às espinhas, e a marca do batom avermelhado fixou-se naquela taça de um vidro caro qualquer.
As marcas de seus lábios denunciavam a insatisfação de estar ali, sozinha, perdida na ilusão da espera. Não aguentava mais. Olhou e desolhou o cardápio dezenas de vezes. Chamara a atenção alguns gourmets caros, em especial o denominado ‘Lagosta ao Thermidor’. Na descrição dizia que a lagosta viria gratinada na própria casca, com molho bechamel; um acompanhamento de purê de batatas, que na apresentação do prato serve de base para montar a lagosta.
Nunca havia comido uma lagosta, sequer uma casquinha de siri. No máximo uma sardinha gratinada na farinha de rosca e bem frita, que a fazia lamber os dedos no fim de semana, na casa da avó materna. Mas, naquele lugar o seu pedido era a ‘Lagosta ao Thermidor’.
Com o que tinha no bolso não pagava nem o serviço da cozinheira. Mas, não era ela o banco da noite. Pode ser que quando a Lagosta chegasse se transformaria em um bicho de sete cabeças, e ela não saberia nem por onde começar a degustação. Mas, daqueles pratos descritos no cardápio preto, com capa aveludada e linhas pratas finas, era o único nome que soava familiar.
Os casais iam chegando. Mulheres pomposas, com vestidos longos e chamativos, nariz empinado, salto alto de dar dor nas juntas no dia seguinte, e um ar de esnobe a qualquer cidadão comum que ousava cumprimenta-las com um boa noite. Eram seguidas por homens de barba feita, e velhos parecidos com políticos, de gravatas borboletas e terno espremido, lembrando um pinguim ao caminhar.
Os sorrisos falsos e as falsas conversas rodeavam por todo aquele ambiente caro. Ela ainda estava insatisfeita. Esqueceu o celular no táxi, como já havia feito outras três vezes, não tinha, então, contato com o mundo lá fora. Baseava sua paciência pelo relógio de ouro maciço que era embutido na parede de sua frente.
Já fazia meia hora e nada. Tudo bem. Uma garoa fina que caia pelas ruas da cidade atrapalhava o intenso trânsito. Ouvira no rádio do taxista que a greve do metrô continuava a toda, e apenas alguns ônibus ainda circulavam pela cidade. Era difícil chegar a qualquer lugar. É de se entender o atraso.
Talvez o seu celular esteja vibrando como um louco no banco do passageiro do carro amarelo. Ou então a associação dos taxistas já viu todas as fotos que ela costuma tirar depois de uma boa noite de prazer. Se aqueles homens sedentos conseguirem abrir a pasta de vídeos, então... sua reputação de mulher respeitada desceria a ladeira. Mas, ainda não era hora de pensar nisso.
Estava se sentindo mal. De todas as mesas do lugar apenas aquela servia uma pessoa. As mulheres estavam todas acompanhadas, e ela disfarçava com um sorriso amarelo, mentindo que seu parceiro foi ao toilet ou conversar com o gerente do restaurante. Na verdade, ela estava sozinha ali há uma hora.
Os garçons andavam a sua volta, esperando a decisão pelo jantar. Alguns deles já comentavam entre si que aquela bela foi passada para trás na noite fria e chuvosa, propícia para um jantar à dois. Ainda assim, ela conseguia manter a sua pose.
Agora, já enganava a si mesma. Percebeu, enfim, que terminaria a noite sozinha, no cachorro quente da esquina. A lagosta ficaria em seus sonhos, quem sabe um outro dia.
O batom paraguaio desbotava em seus carnudos lábios. Seus dentes brancos e seu sorriso largo se despediram por instantes. A mulher feliz e esperançosa por uma noite de amor sem fim entre quatro paredes, depois de um jantar à luz de velas com vinhos caros e pratos chiques, essa mulher se desfez.
Passeando sozinha pelas ruas da cidade grande, olhava as estrelas e ia embora andando até a sua casa. Não era tão longe assim. Cansou dos saltos, que já estavam em suas mãos. A garoa fina molhava seu corpo e os seus sentimentos apaixonados. Por vezes as gotas do céu se juntavam às do seu rosto, e unidas tocavam juntas o chão.
Deixou pra lá o cachorro quente. A tristeza matou a sua fome.
Abriu a porta da casa, que fazia um rangido chato e lento. Não acendeu as luzes. O silêncio daqueles cômodos quietos era ensurdecedor. Deixou os sapatos pelo chão, e o casaco vermelho também. De pés sujos e orgulho ferido, deitou na cama grande e abandonada.
Sentiu um cheiro familiar. O perfume que a encantava e aflorava seus desejos mais amorosos possíveis. Saiu da escuridão quando ligou a luz fraca do abajur, que iluminou a foto de cabeceira. Ela e seu amante, namorado, marido. Abraçados em um dia feliz numa hora qualquer. Hoje, ele a abandonou. Ontem também.
A mulher viva e contente, que dizia bom dia aos vizinhos e esbanjava carisma, agora está morta. Se foi com seu amor, que morreu de coração há alguns meses. A deixou sozinha, sem pudor, sem razão e sem alma.

Ela ainda não se acostumou com a ideia. Toda semana sentava na mesa do restaurante caro, aquele mesmo que ouviu o pedido de casamento, olhava o mesmo cardápio, gravava seus lábios no mesmo copo, acendia as mesmas velas. E ia embora para a solidão.

16 de jun. de 2015

A porta da igreja está entreaberta



Dízimo. Dízimo era o que ele pedia ao bater na porta da rua 3. De casa em casa, da manhã ensolarada até a tarde chuvosa. Não aguentava mais se empanturrar com cafezinho preto que tomava nas residências maiores daquele vilarejo.
- Entre agora menino. Venha receber o dízimo – dizia a senhora que sentava no primeiro banco da igreja pequena, que recebia semanalmente o povo do vilarejo, sedentos de palavras de conforto, e de uma fofoca ou outra que sempre sobrava no final.
- Venha ver a minha santa ceia. Ganhei do meu sobrinho, que foi até Roma, levou a namorada, mas voltaram logo, o pai dela passou mal – ela não parava de falar. E continuou... - Mas, ele lembrou de mim. Menino bom, puxou a mãe. Porque o pai...
A mãe do sobrinho era a sua irmã mais velha. Uma mãe que não teve. Uma gorda feia e chata, daquelas que os vizinhos abominam e as crianças adoram irritar. Isso não vem ao caso.
Recebeu, finalmente, todo o dízimo da semana. Levou ao padre, que lhe deu umas moedinhas em troca, e completou dizendo: Deus o abençoe e lhe dê em dobro, meu caro. E virou-se a batina rumo a santa missa do domingo.
Missa que atraia fiéis que não seguiam em momento algum o título a eles concebido. Fiéis apenas nos olhares invejosos e nas frases maldosas que formulavam em suas cabeças, enquanto o sacerdote seguia as palavras bíblicas lá na frente.
A Maria adorava chegar cedo. A igreja era pequena. Não seguia as tradições daquelas catedrais milenares, com vitrais bonitos e bancos de madeira maciça, feitos a mão. Mas era aconchegante, e conseguia abrigar mendigos friorentos nas noites de julho.
O que realmente chamava atenção naquele santuário era a hora da missa. Um novo conceito de missa. Ninguém olhava para o padre. E ele falava...falava...Lia e folheava as folhas do livro sagrado. Mas, ninguém o escutava.
Era um burburinho aqui, outro ali. Umas mulheres com panos na cabeça, escondendo a vergonha, ajoelhavam e fechavam os olhos do início ao fim da celebração. Outras, angustiadas, fofocavam e riam alto o tempo todo. Os jovens trocavam mensagens nos celulares. Os mais fogosos se encontravam no lado de fora para namorar. As crianças, aquelas que não eram coroinhas, pintavam e bordavam pelos pilares da igreja.
Mas, ainda assim existiam aquelas pessoas que juravam de pés juntos, saber virgula por virgula todas as citações do pároco. Mas, se alguém as perguntasse, não saberiam responder. Na verdade, são duas ou três madames, que levam os filhos para brincar, pagam de santa, mas apenas prestam atenção nos mínimos detalhes das roupas das mulheres vizinhas, assunto elementar no próximo chá da tarde.
Certo domingo santo, todos os devotos desceram o vilarejo rumo aquela igreja, como sempre faziam...
As madames vestiram preto e sapato de salto alto, uma delas até colocou chapéu e óculos escuro, aproveitando o sol da tarde quente do último dia do horário de verão. Na verdade, era apenas para chamar a atenção.
Outras senhoras, da primeira fileira, se encontraram três esquinas antes, e desceram explanando sobre a filha da outra vizinha de baixo, que casou grávida com o namorado desempregado. Assunto pertinente, mas que ficaria apenas entre elas... Ou não.
Duas adolescentes chegariam atrasadas. Entrariam depois do padre. Horário calculado, afinal a chapinha no cabelo e a maquiagem na cara, eram produções demoradas. Tudo feito para impressionar os outros playboys que as encontrariam no lado de fora. Missa que nada!
Tradicionalmente a missa acontecia assim que os sinos da igrejinha dessem o sinal. Sete fortes batidas que faziam a vizinhança afastada despertar. E aí entravam pelo corredor: os coroinhas, a bíblia o dízimo e o padre.
Naquela fatídica última tarde do horário de verão, desciam todos os fiéis para a santa missa do domingo. Ao chegarem não viram as luzes da igreja acesas. O carro do padre não estava no lugar reservado, como sempre aconteceu. As janelas estavam fechadas. A rua estava escura. De um lado nada, do outro também.
As especulações do povo falastrão começaram por ali mesmo. Teorias mirabolantes eram expostas. Chegaram a falar que o padre sumiu com todo o dízimo da comunidade. Alguns, mais comedidos, diziam que ele morreu.
As meninas, que chegariam atrasadas, apareceram assustadas na hora que os sinos balançavam. As crianças choravam, queriam brincar. As mulheres de preto e salto alto já não conseguiam ver a roupa de ninguém. Escureceu, o sol se foi. As fofoqueiras eram as investigadoras mais assíduas, e inflamavam o povo com suas mirabolantes teorias.
O padre, coitado, era acusado de tudo. Era inadmissível aquela igreja estar fechada. Não estava certo. As pessoas deviam sentar, ajoelhar, rezar, era obrigação de cristão. Deus não os perdoaria por faltarem à missa. Coitado do padre.
Em um ato de desespero, uma das senhoras frequentes, percebeu que a porta do lado estava entreaberta.... Ação contínua: empurraram a porta e entraram todos, desesperados. As luzes se acenderam, os sinos fizeram ainda mais barulho. E mais alto, e mais alto...
Não havia ninguém. Tudo vazio. Um olhou para o outro. Cadê a santa missa?
Uma voz, lá no fundo, se destacou sob o silêncio ensurdecedor que afetava aquele lugar. Voz conhecida, do padre. Ufa! Ele não morreu e não nos roubou. Vai ter missa!
Voz de padre, representante de Deus, dono daquela casa santa. Que contou toda essa história sem ninguém o escutar... Coitado!
Ainda pairava no ambiente as risadas grosseiras de mulheres fofoqueiras. Os olhares invejosos das madames do chá da tarde. A inquietação descontrolada de crianças mal-educadas. A despretensiosa paixão das meninas pelos adolescentes folgados. E os coroinhas, que vira e mexe pescavam um grande peixe em seus sonhos enquanto a palavra santa era dita.
Ninguém ali escutou a história contata pelo sacerdote.
Na outra semana, a porta da igreja estava entreaberta. E o dízimo não estava mais no seu lugar.