Para ser sincero, eu não queria escrever este texto. Queria voltar a este espaço com uma mensagem alegre, com um sorriso no rosto, pensamentos positivos, sentimento de euforia. Mas não o farei. Sinto muito, hoje o dia está triste.
Acordei cedo, abri a janela do quarto, varri a minha
calçada, dei comida aos peixes. Ouvi um burburinho vindo do quarto rosa. Ela
estava inquieta, mas logo descobri o motivo, estava descoberta. Levantei com
cuidado a manta, que cobriu suas mãos. Ela, dormindo, sorriu satisfeita. E eu
me senti um super-herói. O meu dia começou feliz.
Passei o café. Forte e sem açúcar – de doce basta a vida;
coloquei o pão com manteiga para esquentar. Arrumei a mesa, com cuidado para
não acordá-las, e me sentei. Era a hora de assistir ao jornal da manhã: e meu
dia desmoronou.
O âncora estampou a notícia: “Cinco crianças e uma professora foram assassinadas em uma creche na
cidade de Janaúba, no Norte de Minas Gerais. O ataque premeditado, foi feito
por um homem de 54 anos, que após o massacre se matou”.
Não sou Pai há muito tempo. Nesta semana, foram exatos seis
meses que a vida dela começou por aqui e a minha teve sentido. Mas acredito que
sempre tive em mim um espírito paterno, familiar, herdado do amor e educação de
meus pais. Talvez seja essa a explicação de um sentimento terrível que me
assolou após o ponto final daquela manchete.
Procurei entender. Não era possível. Teve algum engano,
ruído de informação. Iriam ainda apurar a fundo, pode ser que as palavras mudem
e a desculpa venha. Não pode ser! O café quente, esfriou. O pão com manteiga se
juntou ao nó na garganta. Eu fiquei desolado.
Desliguei a TV, em ato contínuo ela chorou. Estava chamando
por alguém para a levantar daquele berço, após mais uma noite serena de sono. A
peguei, ela acalmou. Dei um abraço, um beijo, e disse que a amava. Ela me
sorriu.
Com sua inocência não sabe o caos do mundo em que vive. Não
imagina que anjos como ela são tão maltratados. Não imagina quão terríveis são
as manchetes lidas diariamente por aquele âncora do jornal matinal.
Quem dera que esse sorriso que ela acabou de me dar, pudesse
transformar a vida de tanta gente, como faz com a minha.
É hora de se arrumar e ir à creche. Um beijo na testa, uma
frase de amor.
Que Deus a abençoe. E que ele conforte o coração daqueles
familiares que não terão mais um sorriso para se alegrar.
Um dia triste.


