6 de out. de 2017

Um dia triste

Para ser sincero, eu não queria escrever este texto. Queria voltar a este espaço com uma mensagem alegre, com um sorriso no rosto, pensamentos positivos, sentimento de euforia. Mas não o farei. Sinto muito, hoje o dia está triste.

Acordei cedo, abri a janela do quarto, varri a minha calçada, dei comida aos peixes. Ouvi um burburinho vindo do quarto rosa. Ela estava inquieta, mas logo descobri o motivo, estava descoberta. Levantei com cuidado a manta, que cobriu suas mãos. Ela, dormindo, sorriu satisfeita. E eu me senti um super-herói. O meu dia começou feliz.

Passei o café. Forte e sem açúcar – de doce basta a vida; coloquei o pão com manteiga para esquentar. Arrumei a mesa, com cuidado para não acordá-las, e me sentei. Era a hora de assistir ao jornal da manhã: e meu dia desmoronou.

O âncora estampou a notícia: “Cinco crianças e uma professora foram assassinadas em uma creche na cidade de Janaúba, no Norte de Minas Gerais. O ataque premeditado, foi feito por um homem de 54 anos, que após o massacre se matou”.

Não sou Pai há muito tempo. Nesta semana, foram exatos seis meses que a vida dela começou por aqui e a minha teve sentido. Mas acredito que sempre tive em mim um espírito paterno, familiar, herdado do amor e educação de meus pais. Talvez seja essa a explicação de um sentimento terrível que me assolou após o ponto final daquela manchete.

Procurei entender. Não era possível. Teve algum engano, ruído de informação. Iriam ainda apurar a fundo, pode ser que as palavras mudem e a desculpa venha. Não pode ser! O café quente, esfriou. O pão com manteiga se juntou ao nó na garganta. Eu fiquei desolado.

Desliguei a TV, em ato contínuo ela chorou. Estava chamando por alguém para a levantar daquele berço, após mais uma noite serena de sono. A peguei, ela acalmou. Dei um abraço, um beijo, e disse que a amava. Ela me sorriu.

Com sua inocência não sabe o caos do mundo em que vive. Não imagina que anjos como ela são tão maltratados. Não imagina quão terríveis são as manchetes lidas diariamente por aquele âncora do jornal matinal.

Quem dera que esse sorriso que ela acabou de me dar, pudesse transformar a vida de tanta gente, como faz com a minha.

É hora de se arrumar e ir à creche. Um beijo na testa, uma frase de amor.

Que Deus a abençoe. E que ele conforte o coração daqueles familiares que não terão mais um sorriso para se alegrar.

Um dia triste.

19 de jul. de 2017

Vida de pais

 A nossa vida mudou. Agora qualquer prioridade se resume a um perfume de erva-doce e uma pele macia, bochechas de maçã. Agora um chorinho fino, às vezes desesperado, se torna o motivo de nossas maiores preocupações. A nossa vida mudou.

Agora o sábado à noite não tem festas e altas risadas com amigos em uma mesa de bar, sem pensar na hora de voltar. Agora o sábado, o domingo e todos os outros dias da semana se abreviam à balada da cama, balançando o berço ao som frenético da Galinha Pintadinha e do Galo Carijó.

O nosso tempo não é mais o mesmo. Nossos dias não têm mais as habituais 24 horas. Não ligamos mais o despertador pra saber quando acordar. Se duvidar até passamos a noite toda em claro, encarando uma prova de resistência para se chegar ao prêmio final: uma respiração serena e uma boa dose de tranquilidade.

As contas do mercado já não são mais as mesmas. O carrinho agora se enche só com os produtos do corredor que antes nem passávamos perto. É fralda de um lado, lenço do outro, chupeta aqui e roupinha ali. A cerveja e o amendoim ficaram pra outro dia.

A nossa vida mudou. Antes era felicidade passageira, amor de dicionário, história sem sentido.

A vida dela mudou. Agora os seus seios não são mais seus. Saem leite, doem, às vezes sangram. Agora são dois milagres divinos. São duas fontes sagradas de onde brotam o líquido de Deus. Seu banho é passageiro, sua pele lugar seguro, seu colo uma muralha, seus olhos confiança.

A vida dele também mudou. Agora não sabe mais explicar seus sentimentos como um dia já fez. Hoje ele precisa apenas de um sorriso modesto para gargalhar. Sai de casa pensando em voltar e o mundo se destrói quando as lágrimas caem daqueles olhinhos espantados com o mundo que a acolheu.

A nossa vida agora é outra. A nossa luta tem sentido. A nossa casa é um lar. As nossas fotos são de uma família. E as nossas respostas a todas as perguntas ficaram mais simples: “Agora sim, sabemos o que é viver”.

26 de abr. de 2017

Meu amor de Pai



Fico quieto para não acordá-la. Já são tantas horas que nem sei, perdi o tempo. Minhas costas doem, mas não ligo. Faz frio, puxo o pequeno cobertor rosa para cima, acho que agora ela está confortável.
Ameaça abrir os olhos. E quando eles abrem vigiam todo lado: mais parecem duas jabuticabas perdidas tentando encontrar o pé de onde caíram ou uma mão acolhedora. Os olhos dela se abrem e junto com eles essa boca pequena, que já faz um bico danado quando não está satisfeita. A mesma boca que não fecha direito porque as bochechas não deixam, e o mesmo bico que devora o alimento que a faz crescer longe de toda a sujeira dos supermercados.
Se espreguiçou. Jogou os braços curtos para cima e mostrou as mãos tão pequenas que parecem de mentira. As mãos esfriam rapidamente, é melhor pôr as luvas. Esticou suas perninhas com dobras em toda parte e levantou os dedinhos de seus pés ainda sem número, relaxando seu esbelto corpo de 49 centímetros.
Eu ainda estou aqui. Dou risada com o seu sorriso que aparece quando ela encontra os anjinhos nos seus sonhos inocentes e fico me perguntando o que posso fazer para preservar essa alegria em seu rosto durante toda a vida.
O vento bate na janela. Puxo o cobertor ainda mais para cima e a protejo de qualquer vento gelado que possa atormentá-la. Começo a cantar em voz baixa cantigas de ninar que aprendi com minha bisavó e acaricio calmamente seus cabelos pretos com cheiro suave.
Eu a amo. Se é que simplesmente a palavra amor pode definir o que eu quero gritar ao mundo.
Já fiz dezenas de planos em meu coração e em todos eles tenho a felicidade dela como um aconchego de que fiz a coisa certa. Em meus planos, idealizados agora, enquanto a vejo descansar em seu berço de ouro, a presentearei com o amor que ela me ensinou a encontrar e que me retribui com uma boa dose todo santo dia.
Não vou prometer a ela a riqueza material que envergonha este mundo. Mas darei, enquanto eu ainda respirar, sementes de amor, amizade e respeito, para que ela cultive e semeie nos jardins da sua vida.
Eu ainda estou aqui. Sentado, desconfortável, analisando de perto esse desenho de Deus e confirmando com meus próprios olhos que ela está, sim, respirando. E, então, poderei dormir tranquilo... até que ela acorde, daqui a alguns minutos.

7 de mar. de 2017

Inimigo particular



Me incomoda o barulho que fazem os ponteiros desse velho relógio. Estão postos em um centro arredondado de cor de ouro, são pretos e se destacam nessa sala, estrondosa apenas pela manhã. Agora, na calmaria de tantas horas, esses ponteiros me esgotam. Parecem aqui de dentro o sino da catedral lá do centro, que toca a cada meia hora e desperta as andorinhas e as corujas, o padre, a beata e os vizinhos.
Parei para admirá-los e percebi o quão injusto sou com os dois ponteiros maiores, que me avisam todos os dias a hora de parar. Não são eles que gritam a cada segundo. Mas há ali um outro ponteiro, pintado de vermelho brilhante, um pouco desgastado por tantas voltas que já deu, e que insiste em gritar a essa hora que os outros marcam.
Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac...
O café que passei há alguns minutos já esfriou e depois desse gole gelado aumenta ainda mais a minha insatisfação com esse barulhento, impávido, inóspito ponteiro vermelho.
Mas não posso engavetá-lo. Também não posso jogá-lo na parede, destruí-lo em mil pedaços, dar-lhe um banho de água fria, colocá-lo embaixo do colchão. Não posso perdê-lo sem querer em um dia de faxina. Preciso dele. Preciso desses ponteiros que me regem, desse vermelho que me afronta.
Meus olhos já estão cheios de areia e ele não para... não para... Tic-tac. Tic-tac. Tic-Tac... Tic...
Escrevo este texto com os olhos vidrados no relógio à minha frente, encarando-o como um leão a sua presa, o lutador a seu rival, o vilão ao mocinho, torcendo por um final feliz que nunca chega. Mas quando decidi pôr um ponto final nesse duelo e jogar a bandeira branca da derrota, ele silenciou...
Lá no centro o sino da catedral esbraveja, o padre já está de banho tomado. Os carros passam, passarinhos cantam, o galo amanhece seu dono, as crianças vão para a escola e os pais vão trabalhar, o moço da laranja grita a promoção, a vida acorda... E o ponteiro se aquieta.

Perdi o meu tempo planejando pará-lo. Mas na próxima madrugada eu prometo que não deixarei o meu café esfriar.

19 de jan. de 2017

A história que quero contar à minha filha

 



Gostaria de começar a escrever coisas boas. Palavras que não geram dúvidas, que não têm questionamentos, que não precisam de explicações. Queria era falar de sentimentos bons, falar do amor, da paz e a felicidade relembrar. Queria pôr fim a todo esse mal que pintam agora. Eu queria te dizer coisas boas.

E venho por meio deste comunicar que não falarei nas próximas linhas aquilo que o mundo te mostra insistentemente, de minuto a minuto, em qualquer espaço que caibam frases de explicação. Vou dizer, caro leitor, o que direi à minha filha.

Vou contar para ela, e agora para você, a história que vivi, enquanto sentado nessa poltrona carcomida pelo tempo: braços rasgados, pano desbotado, confortável apenas para mim. Passarei toda essa história, escrita com letras garranchadas em meu caderno de brochura, para uma folha branca, que até então não expressava qualquer orgulho.

O papel já está na máquina de escrever. Aqui na vizinhança, aliás, acredito que não há pessoa de sentidos tão velhos quanto esses, que trocaria as teclas macias e silenciosas da modernidade por essas letras grandes, barulhentas e apagadas. Não vejo ninguém por aqui com tamanha disposição para a paciência que demanda essa máquina de 1950. Chegou ao fim esta linha, empurro-a de volta.

Essas crianças que aqui brincam do lado de fora, empinando pipas, rodando peões, se escondendo atrás das árvores pensam, eu sei, que sou um senhor fora do tempo e que minha idade e as rugas que não tenho são impressões que já deveria ter perdido. Acredito nelas. As teclas não silenciam.

Eu não me incomodo. Vou contar a você, leitor, e em breve à minha filha essa história que não passa na televisão, não se ouve nos rádios, não se encontra na internet, não se lê em jornais e está, até então, grafada nos pensamentos e coração deste jovem idoso fora do tempo.

É que nessa história o mundo que é de hoje, que é viril, que é louco, que é jovem, que não se explica se mudou. Quero que saiba, se chegou até essas linhas: conhecerá um outro universo, disposto a simplesmente semear o que era bom e agora não existe mais.

Vou sentar minha filha em meu colo, acariciar seus cabelos enquanto digo a ela que neste mundo em que acaba de chegar não existe ilusão, há um amor incomum, que vibra e reluz nos olhos e sentimentos de cada habitante desta terra. Minha história continua, quando digo que não há lobos, bruxas e homens que a farão mal e que seus sonhos, dos mais breves aos mais longos, vão se realizar.

E a explicarei os meus sentimentos, me matando a cada dia com um orgulho de pai que Deus me presenteou. Vou lendo a ela página por página desta vida. Da epígrafe ao prefácio. Do capítulo primeiro em diante.

Passaremos por turbulências, logo resolvidas com palavras de conforto. Enfrentaremos tempestades, passageiras com um tanto de carinho. E viveremos dentro da ilusão de meus versos, abrigados pelo amor da família, pautados pelos caminhos divinos, à sombra da sociedade. Até o último capítulo da minha vida.

Coloco um ponto final, tiro o papel desta máquina. Quando ela nascer vou ler essas linhas que escrevi, imaginando como serão seus passos e o que eu posso fazer para ela ter uma linda história de vida para contar a seus filhos.