Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônicas. Mostrar todas as postagens

11 de jan. de 2022

Pra quem tem fé, a vida nunca tem fim


Nesta cidade conheci uma pessoa bem-educada, um ilustre morador. Todos os dias passeava com seus sentimentos pelas ruas. Dedicava sua vida à gentileza jamais retribuída por essa gente carrancuda. Estava sempre disposto a espalhar palavras de bondade, aprendidas em livros que lia nas noites mal dormidas.

Seus sorrisos, abertos logo na manhã chuvosa de tempo feio, eram motivos de chacota de alguns vizinhos do bairro. As moças nunca entendiam tamanha facilidade em mostrar os dentes, sem mesmo ter um motivo para isso. Afinal, ele era sozinho, morador de uma vida sofrida, solitária, sem qualquer alma para alimentar.

Não entendiam, todos os residentes daquele lugar, como é que alguém tão pobre poderia conceber tanto amor assim. Alguns até se recusavam a um cumprimento pela manhã ou após o almoço: se viravam, mudavam de direção, atravessavam a rua para não topar de frente com o autor deste deboche. “O mundo acabara, e ele sorrindo. Que insensível!”

Nada abalava aquele senhor bem-educado, que conheci por esses dias. Aos que tinham a paciência de uma conversa franca, ele exalava bom-humor e dava conselhos a quem estava disposto a escutar. Dizia quase sempre sua percepção de mundo. Concordava que a vida é sofrida e lembrava a canção que diz “mas ela é boa de se viver em qualquer lugar”. E dava seus motivos (tantos que cansavam), para explicar a teoria.

Ao fim do bate-papo, que quase sempre acontecia em frente à padaria, acompanhado de um café e um pão na chapa, dizia ele palavras que talvez nem os pais dizem aos filhos. Parecia ele o pai de cada um.

Era mesmo de se espantar tamanha disposição em acolher aquele que nem mesmo conhecia. Por vezes era esculachado ao virar as costas e os conselhos dados eram amassados e jogados no lixo.

O lixo, aliás, dizia, era o que mais incomodava por aqui. “Tanto lixo nessa humanidade, que não sei por onde começar”. Queria ele a disposição de todos seus próximos para reciclar aquilo que frequentemente era descartado.

Não entendia o desprezo da mãe à filha adolescente, que engravidou cedo por falta de estrutura – familiar, social, afetuosa. Também queria falar muitas coisas ao menino que abandonou a escola e passa dia e noite brincando de polícia e ladrão nas ruas e vielas da cidade. Tanto tempo, e gente, desperdiçados...

O senhor bem-educado destoava de todo o restante. Jamais questionou aquele que não o respondia. O importante era o próximo se sentir bem com um simples gesto – algo que deveria ser tão comum quanto abrir os olhos (e agradecer por isso).

No fim do dia voltava para casa: solitário, sozinho, perdido, esnobe, desleal à sociedade tão sofrida, que não aceitava tamanha educação em tempos de tantas sombras.

Em seu canto, respirava fundo e lembrava de todos os seus dias – trajetória de luta e fé, que o fez chegar neste ponto da vida com a consciência da importância de uma gentileza. Ninguém sabe das pedras que move para se manter em pé diante de um universo cada vez mais distante de seus conceitos de humanidade. Não aceita se adequar a este mundo desprezível.

O senhor bem-educado, que conheci por esses dias, dissemina a paciência, consciência, amizade, amor, e tudo o que há de se fazer para transformar o dia de um desconhecido. Sozinho, hoje ele ainda é o desprezo da comunidade.

Para mim, tão triste com tudo o que estamos vivendo, foi um enorme prazer conhecê-lo.

1 de jun. de 2021

Catador de latinhas

 


Todas as manhãs o sol aparece depois que eu abro os olhos. Acordo muito cedo, o sereno que entra pela janela me desperta para um dia cheio, como foram outros tantos. Deixo uma almofada ao lado da cama, que serve para meus joelhos não doerem enquanto agradeço ao criador por mais um período de luta – penitência dos novos tempos.

O café preto eu tomo na esquina de casa, oferecido pelo dono da confeitaria, já acostumado com os pedintes. Sou um frequentador assíduo desse lugar: um dos únicos da cidade que não me olham de baixo para cima. Talvez por costume, ou mesmo compaixão.

Dali, sigo ao meu trabalho, revirando todo o lixo das ruas atrás de um alumínio que pode comprar o jantar e quem sabe o almoço do dia seguinte.

Tempos difíceis. Os cidadãos daqui não sabem separar o reciclável do lixo comum. Até eu, que tenho só o fundamental – e olhe lá – lembro bem quando a professora de ciências explicou as maneiras corretas de descarte.

Ah, aquelas aulas são tão importantes ao meu trabalho que se eu soubesse onde viria parar, tinha aproveitado ainda mais. Às vezes me falta saber se um ou outro pedaço de plástico é reaproveitável.

Na dúvida, eu recolho. Coloco no carrinho de mão e levo ao Seu Moacir. Lá ele separa o que pretende comprar, coloca na esteira para seus funcionários fuçarem, e me deixa de canto, até aparecer depois de um tempo com a soma completa de todo o material que eu consegui pegar. Confio nos valores que me passa, afinal, fazer contas não é meu forte.

São míseros reais para ele. Mas todo dia é uma fortuna para mim.

Modéstia à parte, sou bem conhecido nessa comunidade. Ao ponto até de conversar por alguns minutos com meninos do prédio grande sem ninguém achar que estou os importunando. Se acham, nunca me disseram nada. E os meninos gostam de ouvir minhas histórias.

Um deles, teve um dia, me perguntou como vim parar nessa situação, de lixo em lixo, lata em lata, dependendo do dono do negócio não me passar a perna. Disse a ele os caminhos que já passei e as tantas oportunidades que deixei de abraçar. Me regozijei pensando que um velho catador de latinhas pudesse, em algum momento, servir de exemplo para um garoto tão bem instruído assim.

A minha vida é um drama, menino.

Como na guerra, eu vivo com medo, convivo com a dor. A paz é um estado de espírito para aqueles selecionados.

Digo ao Seu Moacir a minha frase preferida, todo santo dia: ‘Sua consciência é o seu guia’. Ele sorri.

Pego logo meu dinheiro e fujo atrás da minha marmita.

A fome é a pior artilharia dessa batalha.

E assim vou levando. Amanhã acordo, de novo, antes do sol nascer.

27 de abr. de 2021

Quando as pessoas não se abraçavam



Disse a eles: “Houve um tempo em que as pessoas não se abraçavam”. Eles ficaram estupefatos, com os olhos esbugalhados, intrigados, remoendo as minhas palavras. Eu entendia a dúvida. No meu colo, no calor de meus braços, logo pensaram não ser possível alguém viver sem uns que agasalham outros corpos.

Hoje vivemos uma vida acalorada. Aos fins de semana, cansados de tantos costumes dos outros dias, colocamos os pés pra cima na cadeira da varanda e nos divertimos com as boas histórias do folclore, desenhadas nos livros grandes de capa dura, que guardo por tantas décadas.

Na cozinha, o café preto e amargo, o leite quente, e os bolinhos de chuva temperados com açúcar e carinho já estão prontos. Logo ouvimos o canto dos pássaros e admiramos o beija-flor colorido, que vira e mexe passa por aqui. No poste da frente, o João-de-barro faz a sua obra-prima: dedica seus minutos planejando a vida junto à sua amada. E eu explico aos pequenos: não há maior poesia que a dele.

Voltamos às nossas breves histórias.

Eles querem saber como era o meu passado, e eu lembrei-me do tempo que o abraço era uma raridade.

Saíamos de casa atentos, todos de máscara escondendo nossas expressões. As ruas, que antes se movimentavam com tamanha aglomeração, eram desertas. Espaço para as folhas secas brincarem de pega-pega, livres, sem ninguém atento a pisoteá-las.

Nos caminhos, planejávamos sempre os próximos passos. Um grande cuidado para não incomodar qualquer opinião com convicções que quase sempre não eram as compartilhadas pela maioria. Víamos com grande pesar e um sentimento de impotência que antes eu não conhecia, corpos estendidos aos montes e familiares chorando a dor da saudade e da despedida que nunca chegou.

Os jornais da época estampavam as mesmas manchetes e pediam ao povo para não se abraçar.

Nunca um abraço fez tanta falta. Nunca um abraço – gesto deserto da nossa rotina – seria tão importante a qualquer ser desse mundo.

Os avós olhavam seus netos pela janela e acenavam como a um desconhecido que anda pela rua. Lacrimejando ou em prantos, os jovens, preocupados com seus velhos, respondiam distante aos gestos de carinho e abraçavam seus próprios braços, sonhando em reencontrar o conforto dos lares perdidos.

Era preciso compreender o momento.

Era preciso encontrar a paciência em Deus.

Era preciso confiar na certeza de que tudo um dia iria passar!

“Que mundo doido”, disse uma das crianças...

E eu a respondi com um longo e terno abraço apertado.

30 de dez. de 2020

As cores e as flores para um feliz ano novo

 


Vire o ano de vermelho para chamar o amor. O verde para implorar a esperança e o branco para descobrir, enfim, a paz. Esbanje o azul se quiser saúde, o dourado para cair do céu a riqueza e o amarelo para a prosperidade entrar em seu caminho. O roxo, dizem, trará mudanças à sua vida e a cor laranja te dará força e energia para enfrentar mais doze longos meses.

Todo ano é a mesma coisa. As peças do guarda-roupas condizem com suas pretensões para o próximo período e muitos acreditam fielmente que talvez o que hoje acontece aqui, tem muito do que deixamos de vestir em 31 de dezembro.

As superstições fazem parte das nossas rotinas e são importantes para ao menos impormos limites aos nossos gostos e gestos. Crendices, algumas mais afloradas, outras particulares, são necessárias.

Mas que bom seria o mundo se os outros dias contassem...

Este ano que chega, por favor, amigo leitor: use as cores de sua vida para juntos mudarmos a nossa.

Use o vermelho, mas seja uma boa pessoa – íntegra, educada, consciente – e terá o amor à sua volta. Vista o verde, mas trabalhe com dignidade, por você e pelo próximo. Assim, a esperança de um mundo melhor será tão mais concreta.

Coloque o branco, mas prometa que deixará de lado as suas inimizades, a vida é curta para tê-las: viva em paz.

Tire do armário a camisa azul, porém, cuide-se, mude sua rotina de comidas erradas, se exercite, procure um médico, leia um livro.

Pode usar uma roupa dourada, e a partir do primeiro dia do ano novo trabalhe e trabalhe. Prepare-se para exercer a sua função da melhor maneira possível. Tenha novas ideias, tire seus projetos da gaveta, confie em seu potencial.

Se quiser, vista-se do amarelo, mas procure a prosperidade em todos os seus passos, afinal, felicidade a gente conquista!

O roxo pode ser uma boa pedida, mas a transformação que você espera para o mundo precisa passar por suas pretensões. Seja você a mudança.

Na noite da virada, adote o laranja como seu tema, mas não deixe que as pedras te aflijam. Guarde todas elas e aprenda. A energia para caminhar, vem das suas atitudes.

Espero, com sinceridade, que este próximo seja um ano colorido, cheio de tudo o que esperamos e acreditamos mudar com os nossos trajes.

Que você tenha um feliz ano novo.

17 de dez. de 2020

Tempos de amores perdidos

 


Passamos por meses difíceis, e um abraço apertado nunca fez tanta falta. Os olhares distantes e de saudades, alguns de dor e angústia, representaram muito do que enfrentamos com o clichê do ‘inimigo invisível’. Nossas dores nem sempre foram compartilhadas. A compaixão à agonia do próximo, não existiu. Dias difíceis. E nunca um aperto de mão, um beijo no rosto, uma carícia de perto na pessoa que ama, fizeram tanta falta. Dias que precisam ser entendidos.

Passei por este período cheio de dúvidas. Não sabia para qual caminho olhar, em qual estrada iria correr. Saí às ruas, desertas, sentindo-me um infrator dos novos costumes. Mas precisava pensar.

Era o início dos tempos assombrosos que logo iríamos perceber. Em março todos fecharam suas portas. O comerciante perdeu a clientela e o prato de arroz e feijão ficou mais caro. O moço da banca de frutas em frente à Catedral, precisou comer o seu estoque para resistir. As crianças ficaram em casa e os pais tiveram que reaprender a divindade de serem pais. Há tempos não se via tantas brincadeiras nos quintais.

Os avós fizeram tamanha falta que, finalmente, os outros parentes se importaram com eles. Idosos ficaram em casa: não puderam ir a supermercados, ou bater perna na feira livre – que também fechou logo de cara. E muitos velhos da vida deram adeus em meio ao isolamento de seus lares. Cômodos vazios da esperança que tanto acometiam os sorrisos dos netos bagunceiros. Morreram, muitos, na cama da solidão.

Não se via mais nas praças dos bairros o movimento dos jovens com a bola de baixo do braço. As praças, apenas os moradores de rua continuaram frequentando. Sem uma vida a mais para encontrar, estes enfrentaram tamanho desafio apenas com a coragem e a habilidade de sobreviver. Para eles, os tempos sempre serão difíceis.

Ficamos todos em casa. E cansamos. Munidos de informações desencontradas sobre o que ocorria, as discussões foram aos montes. Acalorados por um momento que essa geração nunca passou, os debates em torno do assunto se tornaram frequentes. Primos brigaram e não se falam mais. Amigos de infância hoje se ignoram por conta de opiniões distintas. Casais que antes estavam se formando, não querem mais se ver.

Esse vírus, seja lá de onde for, trouxe consequências a mais do que a vida. Tirou muito do que não tínhamos e trouxe além do que precisávamos para entender a nossa existência: necessitamos sentir saudade; a falta nos ensina; os filhos carecem de atenção e os avós de cuidados.

Agora, uma luz se aproxima. Parece-me que muito em breve seremos revestidos de uma dose de remédio e poderemos voltar à rotina. A tão admirável rotina, que nos espera sentada na mesa do café, lendo o jornal diário da hipocrisia e dos tempos de amores perdidos.

11 de dez. de 2020

Minhas aulas em Teoria da Literatura

 


A disciplina de Teoria da Literatura, ministrada na Faculdade de Ciências e Letras - Unesp de Assis, me ensinou a ter paciência nestas palavras. Dizia o professor responsável pela disciplina que a calma foi amiga dos maiores autores que nós conhecemos.

Ao estudar profundamente as obras, e tantas delas, procurávamos analisar com clareza o que aquele artista queria dizer com suas palavras. Parágrafos, pontos e letras. Há cada conto tão imenso de informações que demorávamos dois ou três períodos para desvendá-los.

As aulas, sempre nas sextas-feiras, eram as mais interessantes da minha semana, certamente. Chegávamos à sala já cansados, muitas vezes com os olhos cheios de areia. Mas logo saíamos deste mundo e viajávamos a outros.

Foi uma época de aprendizado e que muito foi esclarecido a mim. A literatura, ali, passou a fazer parte de um cotidiano antes ignorado. Eu passei a conhecê-la além das obras que tanto marcaram a minha adolescência. Estudava os autores e seus filhos com tamanha dedicação que pareciam íntimos. Escrevíamos resenhas a cada semana e escolhíamos poemas ou contos para dissecar. Era uma sexta-feira daquelas.

A matéria mudou a minha rotina e o meu relacionamento com os livros. Depois das aulas nem Clarice e nem Machado passam por mim sem serem analisados. Leio seus textos imaginando como eles foram escritos. Até o barulho das teclas da máquina e a cor amarelada do papel que as canetas tinteiras versavam, eu consigo imaginar.

As coisas que eu escrevo também mudaram. Agora tenho a calma que não tinha para publicar meus textos. Deixo-os descansar por um tempo e depois mudo. Acrescento ou apago algumas letras e reviso as linhas até deixar claro o que eu quero dizer. Não tenho a pretensão de um dia ser analisado por algum docente da Teoria da Literatura. Mas vou facilitar sua vida, caso um dia o faça.

Na sexta-feira à noite, via alunos indo embora arrastando suas mochilas pesadas. Um fardo e tanto carregavam: semana puxada, pilhas de livros, leituras, responsabilidades e saudades de casa. Jovens em busca de uma formação, aventura, e literatura aos montes. Experiências que ficavam melhores com aulas tão bem elaboradas.

1 de out. de 2020

A ordem natural das coisas

 


De praxe, ao escrever um texto que publico diariamente no jornal local, deixo o título por último. Após as linhas escritas, releio as minhas colocações e como manda a cartilha de uma boa redação, o título vem depois. Mas esse aqui, meu caro, comecei de trás pra frente. O título veio primeiro, depois essas linhas que você lê. Como se fosse uma ordem natural, uma sequência, ciência exata, um tópico do livro de regras. O título, depois os parágrafos.

Dito isso, começo a minha história.

Nesta semana conversei com uma senhora que me dizia estar preocupada com o futuro desse mundo. Eu me perguntei: que futuro será que tira o sono de uma senhora de 80 anos? Ela pareceu ouvir as colocações de meus pensamentos e logo explicou: ‘Esse futuro que sua filha vai ter’. Naquela hora eu queria um espelho para ver a minha expressão após entender tal afirmação.

Eu até paro para pensar no futuro. Tento fazer os meus dias melhores, imaginando dias melhores ainda para minha filha. Hoje (pais e mães entendem) tudo o que faço é pensando no futuro dela.

Mas que futuro a espera? Prometo que enquanto eu ainda estiver por aqui, não faltará empenho para fazer com que o seu caminho se encha de flores. Que os lobos se vão, que as pedras se desmanchem, que a vida seja plena, com sorrisos e conquistas.

Já sei o suficiente, porém, para entender que nada será como no conto de fadas que leio todos os dias para ela dormir, e sua vida não dependerá apenas das minhas vontades.

Mas me conforto em saber que ela vê em mim o seu super-herói, que planta as flores, mata os lobos, tira as pedras de seu caminho e salva a mocinha em um final feliz.

Não sou daqueles que preferem dizer que seus filhos precisam aprender desde cedo como a vida é. A vida é dura. Batalhar para conquistar o seu sustento, é uma missão diária que tantos sofrem para enfrentá-la. Mas há um alento no mundo de criança: ela precisa viver num conto de fadas, enquanto o seu super-herói permitir.

O que realmente machuca é pensar que o futuro de muitos destes pequenos já chegou. Não há super-heróis em contos de fadas, flores ou sorrisos em seus passos. Apenas há pedras, espinhos e lobos da vida real, tão maldosos quanto os da fantasia. E há a esperança que uma criança jamais pode perder.

A senhora de 80 anos se preocupou com o futuro da minha filha de três. Eu a agradeci.

Empatia, sabedoria, compaixão. A ordem natural das coisas.

20 de mai. de 2020

Vou esperá-la na janela da minha casa

 

Me seguraram aqui e agora não posso ir até a praça da outra rua, como eu fazia a cada manhã. Fecharam as portas, passaram cadeado. Tem um vírus fatal andando por aí e não há qualquer solução imediata para enfrentá-lo. Ele prefere os mais velhos e o medo, por enquanto, é o melhor remédio.

Na praça, sentado sempre naquele banco da direita, marrom desbotado, eu via o mundo passar. Ali, quase no centro da cidade, via o pipoqueiro chegar cedo e o vendedor de uvas amanhecer. A banca de jornais abria um pouco tarde para quem gosta de receber notícias frescas (e perdeu sua clientela). Via também as pessoas desesperadas pelas horas, indo trabalhar apressadas todo santo dia.

Na padaria, o mesmo homem de chapéu amarelado e barbas a fazer, pedia sempre o mesmo café: sem açúcar e com duas gotas de adoçante, dica do seu doutor para aliviar a diabetes atacada. Na outra ponta do balcão, um jovem rapaz que acordava só após um misto quente sem tomate e um suco de laranja açucarado. Era sempre o mesmo cardápio.

Sentado naquele banco gelado, via o morador de rua acordar. Ele dormia amontoado com seus amigos embaixo da marquise da igreja central. Abria os olhos depois de uma madrugada friorenta e de sonhos enormes, logo contidos pela realidade de pedir uma moeda ou outra na porta do banco federal, um desespero sem fim.

Estou aqui nessa poltrona, lembrando da praça que eu tanto gostava de ir. Penso até nos pombos que eu alimentava com uns grãos de milho, aborrecendo o dono da barraca de cartões que vivia amedrontado pela doença que os pobres voadores podem causar. Dizia ele que os pombos eram a ‘praga da humanidade’. Não duvido se quando eu o ver novamente ouvi-lo dizer que as aves são as causadoras de toda essa desgraça. Vai saber se ele, por todo este tempo, não tinha razão...

Um dos problemas de ficarmos isolados é exatamente este: vivemos empenhados em criar teorias fascinantes sobre o que pode ter acometido um mundo tão tecnológico e desenvolvido como o nosso. O que será que foi capaz de nos trancafiar em nossas próprias rotinas?!

Quanta saudade dos meus costumes.

Mas a saudade que aperta mesmo é daquela moça que quando a conheci tinha cabelos longos, negros e enrolados. Olhos pretos grandes, que engoliam todo o meu sentimento. Pele morena do sol. Mãos macias feito as nuvens. Jeito de me agradar com cada gesto de afeto.

Não posso mais acordá-la para irmos alimentar os pombos. Esse vírus, que nem sequer consigo encarar, a levou.

Mas hoje eu vou encontrá-la da única maneira que meus filhos e netos me ordenaram a fazer.

Vou ver o pôr do sol.

Da janela da minha casa.

 

Crônica de Kallil Dib, a partir da notícia: ‘Após 57 anos de casamento, idoso tenta superar perda da mulher que morreu com Covid-19’, de 28/04/2020.

7 de mai. de 2020

Triste dia de outono

Quem me conhece sabe: eu sempre procuro, primeiro, ver o lado bom das coisas. Quando me acontece alguma fatalidade, me acomete o medo ou me intriga a realidade, eu sento, converso com meu Deus e reflito, reflito, reflito... até encontrar um caminho que seja ao menos próspero e distante da calamidade que impera. Essa maneira de pensar e agir me faz encarar dificuldades tão difíceis que talvez eu não conseguiria enfrentar de outra maneira.

Já faço isso há algum tempo. Costumo guardar sentimentos. Não exteriorizo minhas dores, não choro para não fazer ninguém chorar. Guardo minhas mágoas e preocupações e procuro perdoá-las enquanto elas não me fazem mal.

Costumo demonstrar, com franqueza, um sorriso no rosto para aqueles que me querem bem. Amigos sinceros de longa data, colegas que nos aconselham como a alguém próximo e familiares que nos conhecem como a si mesmos. Estes ganham minha eterna felicidade.

Tem dias que tudo parece ao contrário. Naquele, o sol nem quis aparecer: surgiu por algumas horas e logo se deitou novamente. O café ficou tão fraco que parecia me avisar. O coração já estava apertado antes mesmo de conhecer o seu luto. Era um dia para não ser.

Eu não queria, mas preciso escrever sobre isto.

A escrita, já há algum tempo, faz parte dos meus preceitos. Muitas vezes é a principal (e nesse caso a única), maneira de eu tirar do meu peito palavras que eu queria gritar pro mundo. Isso começou ainda na adolescência, lá pros 15, quando um papel de pão se transformava em um diário.

Hoje, atendendo a uma obrigação profissional, eu deveria escrever uma crônica para publicação nos periódicos costumeiros. Resolvi terminar essa aqui, que comecei a anotar há uma semana, naquele triste dia de outono.

Jamais me faltaram palavras. Sou até um bom conselheiro, ofereço sempre um ombro amigo, um lugar aconchegante para o pranto de alguém. Não vejo problemas em afagar lágrimas, sinto-me especial, um útil servo. Mas naquela manhã eu não fui uma boa companhia. Não encontrei qualquer expressão de alívio.

Agora os pensamentos já estão alinhados.

Já procurei e encontrei um propósito, conversei com Deus, do meu jeito, e ele me acalmou: me deu a paciência e a serenidade que naquela hora eu perdi.

Apenas quem já passou por um momento deste, sabe o quanto é difícil superá-lo. Preciso continuar. Seja lá qual for a minha tristeza, muita gente precisa da minha alegria.

Era um pequenino coração...

Que parou de bater num triste dia de outono.

16 de dez. de 2019

Quatro crônicas de Veríssimo

 

Li para ela quatro crônicas de Veríssimo. Essa mulher precisava rir um pouco mais. E ao final das minhas frases, ela tirou dos olhos uma venda que tampava todo seu caminho. Agora enxergava o jardim à sua frente: viu que as flores que murcharam no inverno passado ainda não haviam ressuscitado. Jogou um pouco d’água e esperou elas se levantarem.

Pediu, então, para eu ler um pouco mais. E procurei em meu armário de madeira um livro marrom de capa dura e com páginas amareladas pelo tempo que já passou. Nele tinham histórias que ela poderia gostar. Mas eu sabia que outros contos, não tão engraçados assim, ela faria questão de logo esquecer.

Comecei a frase do meu texto novo tentando fazer com que ela se interessasse em minhas falas. Exagerei no tom e a bela moça me pediu para abaixar a voz. Disse que tinha alguém ao lado dormindo e que se acordasse àquela hora da tarde, iria dormir de novo tarde da noite. E ninguém ali aguentaria esperar a choradeira passar.

Agora minhas palavras saiam suaves. Eu segurava um livro de histórias em uma das mãos e uma caneta de cor azul na outra. A caneta acompanhava as linhas pretas com letras pequenas e que formavam frases enormes. Ela ia de baixo pra cima, guiando meus olhos.

Li para ela outra crônica de Veríssimo e mais uma de Márquez. E eu me entusiasmava a cada gargalhada daquela senhora.

Estávamos sentados já há muitas horas. Jogamos palavras fora a cada texto terminado. Era incrível como viajamos por tantos lugares, mesmo ela sentada em uma cadeira vermelha de renda e eu em uma poltrona amarela antiga, mas tão conservada quanto a felicidade escondida daquela moça.

- Eu preciso ir embora.

- Volte amanhã e leia mais crônicas de Veríssimo. Ela disse.

Meu caminho para casa foi cheio de felicidade. Campos floridos, olhos marejados, coração explodindo no peito. Eu tentei e mudei uma vida, pelo menos por algumas horas, com quatro crônicas de Veríssimo e mais um tanto de atenção.

19 de set. de 2019

O texto precisa de descanso

 


Diria minha professora de redação da faculdade de Ciências e Letras de Assis – Unesp: que "o texto precisa descansar". De um dia para o outro, se necessário. Amanhã, quando o autor ler novamente sua obra, da primeira até a última linha, vai mudar tantas vírgulas, colocar um verbo a mais, trocar o seu título. O texto de ontem já não é mais o mesmo.

Mas não são todas as obras que têm o privilégio de colocar as aspas para cima e deitar-se na rede, antes de perdurar pela eternidade. O próprio Machado de Assis, o maior desse legado, publicava seus textos sem qualquer sombra e água fresca. Lá no Diário do Rio de Janeiro, seu primeiro jornal, reclamava (vejam só) de ter que se adequar ao tempo de fechamento da edição, e não podia, pobre autor, descansar suas linhas.

Mas Machado era Machado. Afinal, mesmo sem qualquer trégua a seus pensamentos, produziu as melhores obras que já vi. Fico eu então imaginando como seriam suas crônicas e artigos, publicados diariamente no periódico, se tivessem tido um dia ou outro de folga.

Então, convenci-me a descansar meus textos. Mas me assusto ao vê-los um dia depois. Tiro daqui. Acrescento dali. E, se tivesse um espelho para essas escrituras, elas não se reconheceriam.

Este texto que você lê, deixei-o na gaveta. Ficou lá por algum tempo. Este próprio trecho aqui, acabei de acrescentar. Permiti a esta crônica talvez um tom mais agradável. Não gosto muito da parte de teorias. Prefiro a poesia das coisas: as cores dos ponteiros do relógio da parede, as letras desgastadas deste teclado, a poltrona carcomida pelo tempo, que me sento para escrever.

Verdadeiramente, meus textos precisam de descanso. Senão eles ultrapassariam uma lauda, ficariam enormes, sem qualquer chance de um jovem de hoje em dia apreciá-lo.

Em tempo: o primeiro parágrafo escrevi de lembranças que tive da sala de aula. O segundo, após ler trechos de “Memorial de Aires”, o último livro de Machado de Assis, de 1908 – ano em que ele se foi, e descansou.

8 de ago. de 2019

Assinado, Isabella

Hoje eu tenho 16 anos. E daqui vejo que meu lugar foi preenchido pela tristeza. Quando eu nasci, você sorriu. Se orgulhou, me chamou de filha, de meu amor, minha princesa. Minha mãe, de rainha. Agradeceu aos céus com lágrimas nos olhos.

Depois tudo foi mudando...

Aos poucos parou de me levar ao parquinho, disse que trabalhava demais e não tinha tempo para bobagens. Eu entendia. Ficava triste, não vou mentir, mas nunca duvidei da sua dedicação.

Lembro quando chegava em casa tarde da noite e trazia um presente. Algumas vezes um chocolate, outras uma boneca ou apenas um beijo e um abraço apertado, que me confortavam. Contava histórias para eu dormir. E eu dormia como o anjo que virei.

Mas as coisas foram mudando...

Não insisti quando você decidiu se separar da minha mãe. Inocente, gostei da ideia de ter duas casas. Na primeira semana, adorei a novidade. Mas na outra tudo já era assustador.

Eu sentia aos poucos você separando nossos mundos...

Eu juro que tentei te deixar perto de mim. Pedi para você me levar à escola, o caminho de ida volta era suficiente para ficarmos juntos, mas você não quis. No outro dia pedi um sorvete, você não ouviu. Chorei para você enxugar minhas lágrimas, mas não fez. Na verdade, eu pedia apenas um pouco de amor, que você não pôde dar.

Eu não queria ser um problema que me tornei na sua vida. Hoje, aqui, depois de tudo que me fez, não consigo mensurar a dimensão da minha desilusão. Se aquele dia você pedisse para eu ir embora, pai, eu iria.

Eu sei o tamanho da tristeza que carrega em seu peito e conheço a escuridão em que se transformou a sua vida. A minha rotina, se agora, onze anos depois, deseja saber, é de anjo. Que sorri como a única coisa que aprendi em minha estada por aí e que chora por não ter tido alguém para chamar de pai.

Celebre seu dia e não se esqueça de mim.

Sua filha.

 

O texto é uma crônica de ficção, escrita com base na notícia: “Condenado pela morte da filha Isabella Nardoni, Alexandre Nardoni deixou, na manhã desta quinta-feira (8), o pavilhão 2 do complexo de Tremembé (SP), devido à saída temporária de Dia dos Pais. Ele foi condenado a 31 anos de prisão, em março de 2008, após ter asfixiado e jogado Isabella do 6º andar de seu apartamento”, publicada em 08/08/2019. 

3 de abr. de 2019

Cartas à solidão

 


“A vida não é a que a gente viveu e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la (...) Tinha que ensiná-la a pensar no amor como um estado de graça que não era meio para nada, e sim origem e fim em si mesmo”. O amor nos Tempos do Cólera, Gabriel Garcia Márquez

 

A pior dor que um ser humano pode sentir é a da solidão. Não é tão simples quanto parece o que eu faço todos os dias: tomar um café na companhia dos cômodos quietos dessa casa escura, ouvindo o barulho das risadas lá fora, em frente ao retrato virado de cabeça para baixo. A dor mais forte que um ser humano pode sentir é a da solidão.

Nunca foi assim. Quando eu era mais jovem brincávamos de correr no pátio da escola, ficávamos até tarde na rua assistindo ao pôr do sol, tomávamos sorvete na praça da Matriz e íamos embora pensando em voltar. Hoje, sinto a dor da solidão.

Os anos se passaram e nos casamos. Tivemos filhos e netos. Tivemos paciência e amor. Tivemos 50 anos de união, até ela me trair. Lágrimas e dor. Conselhos, amparos, afagos. Nada disso eu quis. Hoje, me agarro nestas linhas para escrever com grande pesar sobre a minha solidão: a agonia mais intensa que um senhor pode conhecer.

A rotina simples do meu dia é esperar o amanhecer. Não ligo para nomes, novelas e jornais. Leio o mesmo livro há três meses e não termino por medo que tenho de ele também me deixar. Não quero chegar ao fim da história e perder meus companheiros diários. Mais do que isso, não quero decepcioná-los guardando na gaveta a incrível história dos amores perdidos nos Tempos do Cólera.

Ela me traiu. Enquanto eu termino esta frase, meus olhos se enchem de lágrimas e orgulho. Juramos a eternidade perante Deus, nossa família e amigos que nunca mais vi. Era uma promessa fácil de se cumprir, mas que, por uma razão que fugiu de meus domínios, não conseguimos. Em seu leito eu não entendia por que fechou os olhos antes de mim. E hoje eu sei que a dor mais forte que um ser humano pode sentir leva o nome de solidão.

Sentado nessa poltrona antiga, escrevendo cartas a qualquer remetente, tento voltar em meus pensamentos para dizer todos os dias que eu a amava, conforme ela esperava. Não tive tempo de presenteá-la como ela merecia. Não enviei rosas, pois eram caras. Não enxuguei suas lágrimas quando ela mais precisava. Eu apenas vivia ao seu lado. E ela nunca desistiu de mim, até hoje, quando deu suas mãos aos anjos.

É por isso que se um jovem casal vier me perguntar sobre os anos que tive ao lado de minha amada, eu ofereço alguns conselhos:

Diga bom dia. Deixe um bilhete na porta da geladeira. Preste atenção em qualquer vírgula de sua história tediosa. Durma ao seu lado, mesmo depois da briga. Afague suas lágrimas com mãos de conforto. Os dois precisam de um ombro amigo. Acima de tudo, ame. Demonstre esse amor e receba em dobro.

Hoje, escrevo cartas à solidão. A dolorida solidão, que tanto fiz para merecê-la.

7 de fev. de 2019

Memórias póstumas

 


Preste atenção em seus amigos, parentes, pessoas próximas. Pode não parecer, mas talvez elas estejam precisando de ajuda.

Comecei a ver cores distantes de mim. Meu mundo já não era como em outras épocas. Há algum tempo eu celebrava. Dava bom dia a meus vizinhos, tomava cedo o café na padaria, ficava até tarde da noite conversando com meus pensamentos. As cores, todas elas, faziam parte de meu universo. Meus sorrisos, sinceros e amarelos, eram fiéis à minha rotina e se mostravam todo tempo. Um jardim inteiro se aflorava em mim.

Mas as flores murcham, elas morrem.

De tanto festejar, fiquei para trás. Minha rotina se cansou. Amigos que eu na verdade nunca tive se distanciaram por motivos que jamais vou entender. Certa vez faltei da festa, outra vez fui embora mais cedo e aquela outra me embriaguei sozinho. Quando me vi, cansei.

Nunca me apeguei a alguma religião. Respeitei os santos, orixás, a qualquer Deus que o humano acredita e questionei aqueles que colocam a ciência acima de todo este propósito. Sei que não foi esse o motivo de eu ter chegado a meu limite.

Quando fui mandado embora do emprego que pagava as minhas contas, me apeguei a um gole de cerveja a cada hora do dia. Me recusei a levantar da cama e procurar outro trabalho. Apenas enxergava que eu era o problema dessa hipócrita sociedade.

Parentes próximos se foram. Alguns mudaram de cidade, outros se despediram desse plano. E me vi sozinho, em uma casa com cômodos bagunçados, louça do mês passado, contas atrasadas e uma profunda tristeza em cada metro quadrado. O fundo do poço, como dizem, chegou.

Uma luz à minha frente se abriu. Decidi pôr um fim a esse lastimável estado de solidão. Um profissional poderia me ajudar. Psicólogo, Psiquiatra, ou um andarilho na rua, certamente ouviria minhas lástimas. Mas nas unidades de saúde do município não havia médicos. Uma consulta particular a 300 reais para alguém sem dinheiro para o almoço, não seria possível.

O fundo do poço se fechou.

Na minha casa, o lençol serviu para o caminho sem volta: o maior pecado que cometi nessa minha inútil existência de 21 anos.

As flores murcharam, elas morreram.

 

 Precisamos falar sobre a depressão

A depressão é um distúrbio afetivo que gera uma tristeza profunda, perda de interesse generalizado, falta de ânimo, de apetite, ausência de prazer e oscilações de humor que podem acabar em pensamentos suicidas. Por isso, ela precisa de um acompanhamento médico, tanto para o diagnóstico quanto para o tratamento adequado.

A depressão atinge mais de 300 milhões de pessoas de todas as idades no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). No Brasil, a estimativa é que 5,8% da população seja afetada pela doença.  Em nosso país existe o CVV – Centro de Valorização da Vida, que realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo 24 horas todos os dias, basta discar o número 188.

10 de jan. de 2019

O casal de velhos

 


Nos tornamos um casal comum. Às segundas saímos pra trabalhar com uma bitoca pela manhã e um bom dia de longe. Ela se arruma correndo – sempre perde a hora – pega a pequena com uma das mãos, as fraldas e a mamadeira com a outra e entra no carro. Esquece a chave e volta... está, como nos próximos dias, em cima da mesa. Eu sorrio, como farei de novo amanhã. Subo na moto e também vou pra minha rotina.

Às terças, saímos no mesmo horário. Hoje ela acordou mais cedo, passou a escova no cabelo bagunçado pra tentar me impressionar (eu sei), pegou as fraldas, a mamadeira, a chupeta e a pequena. Mais tarde nos vemos, contamos o dia sem tantas novidades assim, sofremos de sono enquanto nossa filha pula de lá pra cá, até se cansar.

Na quarta, adoramos um x-tudo à noite. Dia de futebol na sala e novela no quarto e uma criança correndo pelos estreitos corredores, protegida por um anjo da guarda que não a deixa enfiar a cabeça na quina da mesa. Os gols e o par romântico, na verdade, ficam pra depois... ou nem existem mais.

Na quinta, alguns amigos solteiros aparecem, mandam mensagens chamando pra alguma balada. E pensamos, ao olhar um para o outro, “só se for a balada da cama”. Gargalhamos, agradecemos o convite e esperamos algum outro casal, com filho e tão careta quanto nós, nos chamar pra uma pizza ou uma porçãozinha de batata no conforto do nosso lar.

A noite de sexta chega jogando areia nos olhos. O cansaço bate lá pelas 17h, quando o descanso vai batendo à porta. 

Até que vem o sábado. Usamos ele pra passear aqui ou ali. Nada que vá além de umas 16h, quando já estamos em casa, programando o filme que finalmente teremos tempo de assistir, depois, é claro, que um serzinho fechar os olhos. Tudo bem, pode ser tarde... Amanhã é domingo. Pois é, dormimos antes mesmo dela. O filme fica pra próxima.

E acordamos lá pras 11h. É domingo. Procuramos algum bondoso familiar que nos chame pra um almoço e acabamos sempre na casa dos pais. Nada que passe de uma tarde. Ficamos doidos pra ir deitar, no sofá ou na cama, qualquer lugar da nossa abençoada e bagunçada casa, que nos deixará prontos para a rotina de amanhã.

Daqui a pouco completamos 4 anos nessa intensa vida de casados. Conhecendo e nos acostumando com nossos costumes e aprendendo a respeitar a nossa rotina.

Como dizem por aí, somos “velhos”. Talvez... Não sei se envelhecemos cedo demais. Mas eu sei que se a velhice for isso aqui, é aqui que eu quero ficar!

3 de set. de 2018

Vide vida marvada

 


Vida marvada. Dizia Rolando Boldrin ao contar sobre o caminho de um sertanejo em uma de suas histórias, que virou uma das minhas preferidas canções. Lá, entre versos e rimas, o autor diz dos percalços e calços dessa existência.

Aqui, a esposa grávida passou mal. Casados há menos de um ano aqueles dois pareciam crianças que se olharam pela primeira vez. Esperavam uma menina, que viria a esse mundo para mostrar-lhes a razão. O caminho dele ficou estreito, escuro, triste. Sua esposa se foi, junto com sua filha. Um abraço sincero de pesar sei que não o confortou.

E depois, a notícia de um acidente que matou um jovem de 29 anos, lá para as bandas de outro estado, me trouxe lembranças de quando eu ainda não entendia o tamanho dessa angústia que senti. Crescemos nos mesmos caminhos, ainda na rua por asfaltar na vila Adileta. Fomos contemporâneos na escola do bairro. Já subimos e descemos muitas vezes juntos a Tamandaré, carregando uma bola de capotão e um sorriso do tamanho de nosso futuro. Ele se foi cedo demais.

E quando a garota, menor de idade, foi morta por um tiro; o menino, que andava de bicicleta naquela via, como sempre fez, foi atropelado e agora não sabe quando vai voltar; e as tragédias em outros tantos cantos, crianças mortas de fome; partidas e doenças inesperadas de entes que são a nossa base...

Isso aqui, que vivemos agora, não é pra qualquer um. Tem que ter muita fé e coragem.

“E assim vou tocando essa vida marvada...”.

13 de jul. de 2018

Um espetáculo que se chama Copa do Mundo

 A bola na trave, o gol que não veio, o pênalti marcado que o juiz voltou atrás... O lance magistral, a surpresa no caminho, a decepção dos campeões. A Copa do Mundo da Rússia está marcada na história do esporte mais popular do planeta. O mundial de 2018 apresentou o improvável, o imprevisto, o inesquecível. Disse ao mundo o que é o Futebol.

As quatro linhas mostraram que o favoritismo não ganha jogo. Alemanha, Espanha e Argentina foram embora cedo. Deixaram pra trás a soberba, as esperanças perdidas, os fãs decepcionados. O Brasil, talvez o melhor Brasil das últimas Copas, caiu. Foi-se ladeira abaixo, quando Lukaku, Hazard e cia., deitaram e rolaram. Mas não igual ao nosso camisa 10...

Em campo, a surpresa Croácia, de Modric e Rakitic, e a França, de Mbappé, Kanté e Pogba, (diga-se a única na fila das apostas que vingou), encerraram o espetáculo.

Um espetáculo que se chama Copa do Mundo. Daqueles que o protagonismo não está dentro do campo, na bola, no gol, na defesa, na vitória, na derrota.

O protagonista de uma Copa é o torcedor, que neste ano chamou a atenção. Daqueles desprezíveis, com insultos machistas compartilhados – e combatidos – nas redes, aos que encantaram e deram exemplo, como os japoneses recolhendo os lixos dos estádios. Torcedores que mostraram ao planeta uma outra Rússia.

Rússia essa conhecida pelo gelado clima diplomático, ferveu com a miscigenação em suas ruas. Diz quem lá esteve que o maior país do mundo, jamais presenciou tamanho congraçamento.

Copa que é Copa tem lágrimas além dos sorrisos e emoção além da razão. E essa teve. Ingredientes perfeitos para uma bela competição de futebol. O futebol respira e nos fez respirar em meio a tanta nebulosidade.

Não ligue, brasileiro, para o resultado que ficou novamente pelo caminho. Afinal, apreciamos em 2018 um grandioso espetáculo, digno de uma grande Copa do Mundo.

Voltamos à nossa realidade...

19 de jun. de 2018

Minha plena sensatez

 


Eu também não sei quem sou – contou ele.

Não sei se sou o mar, que rege as ondas, que batem e voltam ao oceano de imensidão. Também não sei se sou ventania, que passa por essa vida deixando rastros de destruição. Não sei, também, o que sou.

As vezes pareço triste. Mais quieto do que você gostaria. Mas não estou. Na verdade estou pensando em você e o que faço para te agradar no próximo segundo. Pareço quieto, eu sei. Mas não estou. Estou pensando no filme que podemos assistir no sábado à noite, na novela que pode te fazer chorar. Pensando em não demonstrar que nervoso fico quando você coloca as suas pernas em cima das minhas.

Pareço quieto, cansado. Na verdade, estou pronto para te atender. Pode me contar seu dia, estou escutando cada vírgula. Pode me falar da matemática, que eu vou corrigir seu português. Pode ficar a noite toda me dizendo coisas que não entendo, coisas do seu mundo, e eu estarei aqui ainda te escutando.

Apenas pareço quieto. Mas por dentro há uma imensidão de felicidade. Há sentimentos de gratidão por toda parte de mim e amor, que forma o meu ser. Por vezes pareço que não ligo, mas tenha certeza: suas angústias são as minhas.

Posso ouvir calado sua dor, mas me castigo por dentro, tentando ser forte diante de seus olhos para que não desista por uma simples pedra que apareceu em seu caminho. Aliás, estou eu quieto, pensando em como deixar seu caminho tranquilo, com qualquer que seja minha contribuição.

Aqui estou quieto, pensando em palavras bonitas para te dizer pela manhã e lembrando das tarefas que preciso atender antes que me cobre de novo.

Estou quieto, mas por dentro grito seu nome, peço a sua ajuda e suplico, grito ao universo, para que entenda a minha paz e não deixe, nem por seu segundo de insensatez, de confiar no meu amor.

Estou quieto, estou. E pensando em você.

Na verdade não sei o que sou. Se o mar ou ventania. Se amor ou destruição.

9 de mar. de 2018

Os meus primeiros passos




1, 2, 3 passinhos. Um sorriso banguela com dois dentes à mostra, cabelos curtos - enrolados apenas atrás - ao vento, e pezinhos de pão que tentam se manter firmes naquele chão frio. Ela começa a caminhar...
A felicidade é imensa, parece que descobriu outro mundo além dos colos carinhosos por onde já passou. Tem ainda a vantagem de pedir que a peguem quando suas pernas com dobras em toda parte se cansam. Mas não repousa tão fácil assim. Cansam mais os adultos, tão calejados de andar por aí. “Eles que agora corram atrás de mim”, deve pensar.
Ela está descobrindo cada sentido dessa vida e isso é uma explosão de sentimentos que nasce em meu coração. A alegria dela em mim é multiplicada em milhões de vezes, somada ao infinito e igualada a eternidade.
As mãos que a incentivam para que continue descobrindo seus passos, são as mesmas que sempre (e depois, se existir), irão acarinhar seu rosto, afagar suas lágrimas, acalmar seus medos. É um sorriso a cada passo curto. Ela começa a caminhar, tem receio, às vezes assusta, outras desembesta, pega confiança e sai andando até descobrir que o caminho é mais longo do que pensava.
Ainda não sabe o tamanho dos caminhos dessa vida. Não imagina que nem tudo aqui é feito de afago e que neste caminho que começa a descobrir terá que enfrentar pedras e espinhos. Porém, já sabe que, como agora, terá alguém para se amparar quando a dificuldade aparecer.
Os primeiros passos dela até parecem que também são os meus. Na verdade, eles são! Agora é que comecei a caminhar, andar por um sentido, passo a passo atrás de qualquer razão que possa dar a ela todo conforto, amor e carinho que um dia eu também recebi.
Pequenina, pede auxílio para não se esborrachar no chão. Eu estou lá para ajudá-la. E assim farei, até quando ela começar a caminhar sozinha.

6 de out. de 2017

Um dia triste

Para ser sincero, eu não queria escrever este texto. Queria voltar a este espaço com uma mensagem alegre, com um sorriso no rosto, pensamentos positivos, sentimento de euforia. Mas não o farei. Sinto muito, hoje o dia está triste.

Acordei cedo, abri a janela do quarto, varri a minha calçada, dei comida aos peixes. Ouvi um burburinho vindo do quarto rosa. Ela estava inquieta, mas logo descobri o motivo, estava descoberta. Levantei com cuidado a manta, que cobriu suas mãos. Ela, dormindo, sorriu satisfeita. E eu me senti um super-herói. O meu dia começou feliz.

Passei o café. Forte e sem açúcar – de doce basta a vida; coloquei o pão com manteiga para esquentar. Arrumei a mesa, com cuidado para não acordá-las, e me sentei. Era a hora de assistir ao jornal da manhã: e meu dia desmoronou.

O âncora estampou a notícia: “Cinco crianças e uma professora foram assassinadas em uma creche na cidade de Janaúba, no Norte de Minas Gerais. O ataque premeditado, foi feito por um homem de 54 anos, que após o massacre se matou”.

Não sou Pai há muito tempo. Nesta semana, foram exatos seis meses que a vida dela começou por aqui e a minha teve sentido. Mas acredito que sempre tive em mim um espírito paterno, familiar, herdado do amor e educação de meus pais. Talvez seja essa a explicação de um sentimento terrível que me assolou após o ponto final daquela manchete.

Procurei entender. Não era possível. Teve algum engano, ruído de informação. Iriam ainda apurar a fundo, pode ser que as palavras mudem e a desculpa venha. Não pode ser! O café quente, esfriou. O pão com manteiga se juntou ao nó na garganta. Eu fiquei desolado.

Desliguei a TV, em ato contínuo ela chorou. Estava chamando por alguém para a levantar daquele berço, após mais uma noite serena de sono. A peguei, ela acalmou. Dei um abraço, um beijo, e disse que a amava. Ela me sorriu.

Com sua inocência não sabe o caos do mundo em que vive. Não imagina que anjos como ela são tão maltratados. Não imagina quão terríveis são as manchetes lidas diariamente por aquele âncora do jornal matinal.

Quem dera que esse sorriso que ela acabou de me dar, pudesse transformar a vida de tanta gente, como faz com a minha.

É hora de se arrumar e ir à creche. Um beijo na testa, uma frase de amor.

Que Deus a abençoe. E que ele conforte o coração daqueles familiares que não terão mais um sorriso para se alegrar.

Um dia triste.