Li para ela quatro crônicas de Veríssimo. Essa mulher precisava rir um
pouco mais. E ao final das minhas frases, ela tirou dos olhos uma venda que
tampava todo seu caminho. Agora enxergava o jardim à sua frente: viu que as flores
que murcharam no inverno passado ainda não haviam ressuscitado. Jogou um pouco
d’água e esperou elas se levantarem.
Pediu, então, para eu ler um pouco mais. E procurei em meu armário de
madeira um livro marrom de capa dura e com páginas amareladas pelo tempo que já
passou. Nele tinham histórias que ela poderia gostar. Mas eu sabia que outros
contos, não tão engraçados assim, ela faria questão de logo esquecer.
Comecei a frase do meu texto novo tentando fazer com que ela se
interessasse em minhas falas. Exagerei no tom e a bela moça me pediu para
abaixar a voz. Disse que tinha alguém ao lado dormindo e que se acordasse
àquela hora da tarde, iria dormir de novo tarde da noite. E ninguém ali
aguentaria esperar a choradeira passar.
Agora minhas palavras saiam suaves. Eu segurava um livro de histórias em
uma das mãos e uma caneta de cor azul na outra. A caneta acompanhava as linhas
pretas com letras pequenas e que formavam frases enormes. Ela ia de baixo pra
cima, guiando meus olhos.
Li para ela outra crônica de Veríssimo e mais uma de Márquez. E eu me
entusiasmava a cada gargalhada daquela senhora.
Estávamos sentados já há muitas horas. Jogamos palavras fora a cada
texto terminado. Era incrível como viajamos por tantos lugares, mesmo ela
sentada em uma cadeira vermelha de renda e eu em uma poltrona amarela antiga,
mas tão conservada quanto a felicidade escondida daquela moça.
- Eu preciso ir embora.
- Volte amanhã e leia mais crônicas de Veríssimo. Ela disse.
Meu caminho para casa foi cheio de felicidade. Campos floridos, olhos
marejados, coração explodindo no peito. Eu tentei e mudei uma vida, pelo menos por
algumas horas, com quatro crônicas de Veríssimo e mais um tanto de atenção.
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Obrigado, volte sempre att.Kallil Dib