Me seguraram aqui e agora não posso ir até a praça da outra
rua, como eu fazia a cada manhã. Fecharam as portas, passaram cadeado. Tem um
vírus fatal andando por aí e não há qualquer solução imediata para enfrentá-lo.
Ele prefere os mais velhos e o medo, por enquanto, é o melhor remédio.
Na praça, sentado sempre naquele banco da direita, marrom
desbotado, eu via o mundo passar. Ali, quase no centro da cidade, via o pipoqueiro
chegar cedo e o vendedor de uvas amanhecer. A banca de jornais abria um pouco
tarde para quem gosta de receber notícias frescas (e perdeu sua clientela). Via
também as pessoas desesperadas pelas horas, indo trabalhar apressadas todo
santo dia.
Na padaria, o mesmo homem de chapéu amarelado e barbas a
fazer, pedia sempre o mesmo café: sem açúcar e com duas gotas de adoçante, dica
do seu doutor para aliviar a diabetes atacada. Na outra ponta do balcão, um jovem
rapaz que acordava só após um misto quente sem tomate e um suco de laranja
açucarado. Era sempre o mesmo cardápio.
Sentado naquele banco gelado, via o morador de rua acordar. Ele
dormia amontoado com seus amigos embaixo da marquise da igreja central. Abria
os olhos depois de uma madrugada friorenta e de sonhos enormes, logo contidos
pela realidade de pedir uma moeda ou outra na porta do banco federal, um
desespero sem fim.
Estou aqui nessa poltrona, lembrando da praça que eu tanto
gostava de ir. Penso até nos pombos que eu alimentava com uns grãos de milho, aborrecendo
o dono da barraca de cartões que vivia amedrontado pela doença que os pobres
voadores podem causar. Dizia ele que os pombos eram a ‘praga da humanidade’.
Não duvido se quando eu o ver novamente ouvi-lo dizer que as aves são as
causadoras de toda essa desgraça. Vai saber se ele, por todo este tempo, não
tinha razão...
Um dos problemas de ficarmos isolados é exatamente este:
vivemos empenhados em criar teorias fascinantes sobre o que pode ter acometido
um mundo tão tecnológico e desenvolvido como o nosso. O que será que foi capaz
de nos trancafiar em nossas próprias rotinas?!
Quanta saudade dos meus costumes.
Mas a saudade que aperta mesmo é daquela moça que quando a
conheci tinha cabelos longos, negros e enrolados. Olhos pretos grandes, que
engoliam todo o meu sentimento. Pele morena do sol. Mãos macias feito as
nuvens. Jeito de me agradar com cada gesto de afeto.
Não posso mais acordá-la para irmos alimentar os pombos.
Esse vírus, que nem sequer consigo encarar, a levou.
Mas hoje eu vou encontrá-la da única maneira que meus filhos
e netos me ordenaram a fazer.
Vou ver o pôr do sol.
Da janela da minha casa.
Crônica de Kallil Dib, a partir da notícia: ‘Após 57
anos de casamento, idoso tenta superar perda da mulher que morreu com Covid-19’,
de 28/04/2020.
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