Hoje eu tenho 16 anos. E daqui vejo que meu lugar foi
preenchido pela tristeza. Quando eu nasci, você sorriu. Se orgulhou, me chamou
de filha, de meu amor, minha princesa. Minha mãe, de rainha. Agradeceu aos céus
com lágrimas nos olhos.
Depois tudo foi mudando...
Aos poucos parou de me levar ao parquinho, disse que
trabalhava demais e não tinha tempo para bobagens. Eu entendia. Ficava triste,
não vou mentir, mas nunca duvidei da sua dedicação.
Lembro quando chegava em casa tarde da noite e trazia um
presente. Algumas vezes um chocolate, outras uma boneca ou apenas um beijo e um
abraço apertado, que me confortavam. Contava histórias para eu dormir. E eu
dormia como o anjo que virei.
Mas as coisas foram mudando...
Não insisti quando você decidiu se separar da minha mãe.
Inocente, gostei da ideia de ter duas casas. Na primeira semana, adorei a
novidade. Mas na outra tudo já era assustador.
Eu sentia aos poucos você separando nossos mundos...
Eu juro que tentei te deixar perto de mim. Pedi para você me
levar à escola, o caminho de ida volta era suficiente para ficarmos juntos, mas
você não quis. No outro dia pedi um sorvete, você não ouviu. Chorei para você
enxugar minhas lágrimas, mas não fez. Na verdade, eu pedia apenas um pouco de
amor, que você não pôde dar.
Eu não queria ser um problema que me tornei na sua vida.
Hoje, aqui, depois de tudo que me fez, não consigo mensurar a dimensão da minha
desilusão. Se aquele dia você pedisse para eu ir embora, pai, eu iria.
Eu sei o tamanho da tristeza que carrega em seu peito e
conheço a escuridão em que se transformou a sua vida. A minha rotina, se agora,
onze anos depois, deseja saber, é de anjo. Que sorri como a única coisa que
aprendi em minha estada por aí e que chora por não ter tido alguém para chamar
de pai.
Celebre seu dia e não se esqueça de mim.
Sua filha.
O texto é uma crônica de ficção, escrita com base na notícia: “Condenado pela morte da filha Isabella Nardoni, Alexandre Nardoni deixou, na manhã desta quinta-feira (8), o pavilhão 2 do complexo de Tremembé (SP), devido à saída temporária de Dia dos Pais. Ele foi condenado a 31 anos de prisão, em março de 2008, após ter asfixiado e jogado Isabella do 6º andar de seu apartamento”, publicada em 08/08/2019.
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