Gostaria de começar a escrever coisas boas. Palavras que não
geram dúvidas, que não têm questionamentos, que não precisam de explicações.
Queria era falar de sentimentos bons, falar do amor, da paz e a felicidade relembrar.
Queria pôr fim a todo esse mal que pintam agora. Eu queria te dizer coisas
boas.
E venho por meio deste comunicar que não falarei nas
próximas linhas aquilo que o mundo te mostra insistentemente, de minuto a
minuto, em qualquer espaço que caibam frases de explicação. Vou dizer, caro
leitor, o que direi à minha filha.
Vou contar para ela, e agora para você, a história que vivi,
enquanto sentado nessa poltrona carcomida pelo tempo: braços rasgados, pano
desbotado, confortável apenas para mim. Passarei toda essa história, escrita
com letras garranchadas em meu caderno de brochura, para uma folha branca, que
até então não expressava qualquer orgulho.
O papel já está na máquina de escrever. Aqui na vizinhança,
aliás, acredito que não há pessoa de sentidos tão velhos quanto esses, que
trocaria as teclas macias e silenciosas da modernidade por essas letras
grandes, barulhentas e apagadas. Não vejo ninguém por aqui com tamanha
disposição para a paciência que demanda essa máquina de 1950. Chegou ao fim esta
linha, empurro-a de volta.
Essas crianças que aqui brincam do lado de fora, empinando
pipas, rodando peões, se escondendo atrás das árvores pensam, eu sei, que sou
um senhor fora do tempo e que minha idade e as rugas que não tenho são
impressões que já deveria ter perdido. Acredito nelas. As teclas não silenciam.
Eu não me incomodo. Vou contar a você, leitor, e em breve à
minha filha essa história que não passa na televisão, não se ouve nos rádios,
não se encontra na internet, não se lê em jornais e está, até então, grafada nos
pensamentos e coração deste jovem idoso fora do tempo.
É que nessa história o mundo que é de hoje, que é viril, que
é louco, que é jovem, que não se explica se mudou. Quero que saiba, se chegou
até essas linhas: conhecerá um outro universo, disposto a simplesmente semear o
que era bom e agora não existe mais.
Vou sentar minha filha em meu colo, acariciar seus cabelos
enquanto digo a ela que neste mundo em que acaba de chegar não existe ilusão,
há um amor incomum, que vibra e reluz nos olhos e sentimentos de cada habitante
desta terra. Minha história continua, quando digo que não há lobos, bruxas e
homens que a farão mal e que seus sonhos, dos mais breves aos mais longos, vão se
realizar.
E a explicarei os meus sentimentos, me matando a cada dia
com um orgulho de pai que Deus me presenteou. Vou lendo a ela página por página
desta vida. Da epígrafe ao prefácio. Do capítulo primeiro em diante.
Passaremos por turbulências, logo resolvidas com palavras de
conforto. Enfrentaremos tempestades, passageiras com um tanto de carinho. E
viveremos dentro da ilusão de meus versos, abrigados pelo amor da família,
pautados pelos caminhos divinos, à sombra da sociedade. Até o último capítulo da
minha vida.
Coloco um ponto final, tiro o papel desta máquina. Quando
ela nascer vou ler essas linhas que escrevi, imaginando como serão seus passos
e o que eu posso fazer para ela ter uma linda história de vida para contar a
seus filhos.
