3 de set. de 2018

Vide vida marvada

 


Vida marvada. Dizia Rolando Boldrin ao contar sobre o caminho de um sertanejo em uma de suas histórias, que virou uma das minhas preferidas canções. Lá, entre versos e rimas, o autor diz dos percalços e calços dessa existência.

Aqui, a esposa grávida passou mal. Casados há menos de um ano aqueles dois pareciam crianças que se olharam pela primeira vez. Esperavam uma menina, que viria a esse mundo para mostrar-lhes a razão. O caminho dele ficou estreito, escuro, triste. Sua esposa se foi, junto com sua filha. Um abraço sincero de pesar sei que não o confortou.

E depois, a notícia de um acidente que matou um jovem de 29 anos, lá para as bandas de outro estado, me trouxe lembranças de quando eu ainda não entendia o tamanho dessa angústia que senti. Crescemos nos mesmos caminhos, ainda na rua por asfaltar na vila Adileta. Fomos contemporâneos na escola do bairro. Já subimos e descemos muitas vezes juntos a Tamandaré, carregando uma bola de capotão e um sorriso do tamanho de nosso futuro. Ele se foi cedo demais.

E quando a garota, menor de idade, foi morta por um tiro; o menino, que andava de bicicleta naquela via, como sempre fez, foi atropelado e agora não sabe quando vai voltar; e as tragédias em outros tantos cantos, crianças mortas de fome; partidas e doenças inesperadas de entes que são a nossa base...

Isso aqui, que vivemos agora, não é pra qualquer um. Tem que ter muita fé e coragem.

“E assim vou tocando essa vida marvada...”.

13 de jul. de 2018

Um espetáculo que se chama Copa do Mundo

 A bola na trave, o gol que não veio, o pênalti marcado que o juiz voltou atrás... O lance magistral, a surpresa no caminho, a decepção dos campeões. A Copa do Mundo da Rússia está marcada na história do esporte mais popular do planeta. O mundial de 2018 apresentou o improvável, o imprevisto, o inesquecível. Disse ao mundo o que é o Futebol.

As quatro linhas mostraram que o favoritismo não ganha jogo. Alemanha, Espanha e Argentina foram embora cedo. Deixaram pra trás a soberba, as esperanças perdidas, os fãs decepcionados. O Brasil, talvez o melhor Brasil das últimas Copas, caiu. Foi-se ladeira abaixo, quando Lukaku, Hazard e cia., deitaram e rolaram. Mas não igual ao nosso camisa 10...

Em campo, a surpresa Croácia, de Modric e Rakitic, e a França, de Mbappé, Kanté e Pogba, (diga-se a única na fila das apostas que vingou), encerraram o espetáculo.

Um espetáculo que se chama Copa do Mundo. Daqueles que o protagonismo não está dentro do campo, na bola, no gol, na defesa, na vitória, na derrota.

O protagonista de uma Copa é o torcedor, que neste ano chamou a atenção. Daqueles desprezíveis, com insultos machistas compartilhados – e combatidos – nas redes, aos que encantaram e deram exemplo, como os japoneses recolhendo os lixos dos estádios. Torcedores que mostraram ao planeta uma outra Rússia.

Rússia essa conhecida pelo gelado clima diplomático, ferveu com a miscigenação em suas ruas. Diz quem lá esteve que o maior país do mundo, jamais presenciou tamanho congraçamento.

Copa que é Copa tem lágrimas além dos sorrisos e emoção além da razão. E essa teve. Ingredientes perfeitos para uma bela competição de futebol. O futebol respira e nos fez respirar em meio a tanta nebulosidade.

Não ligue, brasileiro, para o resultado que ficou novamente pelo caminho. Afinal, apreciamos em 2018 um grandioso espetáculo, digno de uma grande Copa do Mundo.

Voltamos à nossa realidade...

19 de jun. de 2018

Minha plena sensatez

 


Eu também não sei quem sou – contou ele.

Não sei se sou o mar, que rege as ondas, que batem e voltam ao oceano de imensidão. Também não sei se sou ventania, que passa por essa vida deixando rastros de destruição. Não sei, também, o que sou.

As vezes pareço triste. Mais quieto do que você gostaria. Mas não estou. Na verdade estou pensando em você e o que faço para te agradar no próximo segundo. Pareço quieto, eu sei. Mas não estou. Estou pensando no filme que podemos assistir no sábado à noite, na novela que pode te fazer chorar. Pensando em não demonstrar que nervoso fico quando você coloca as suas pernas em cima das minhas.

Pareço quieto, cansado. Na verdade, estou pronto para te atender. Pode me contar seu dia, estou escutando cada vírgula. Pode me falar da matemática, que eu vou corrigir seu português. Pode ficar a noite toda me dizendo coisas que não entendo, coisas do seu mundo, e eu estarei aqui ainda te escutando.

Apenas pareço quieto. Mas por dentro há uma imensidão de felicidade. Há sentimentos de gratidão por toda parte de mim e amor, que forma o meu ser. Por vezes pareço que não ligo, mas tenha certeza: suas angústias são as minhas.

Posso ouvir calado sua dor, mas me castigo por dentro, tentando ser forte diante de seus olhos para que não desista por uma simples pedra que apareceu em seu caminho. Aliás, estou eu quieto, pensando em como deixar seu caminho tranquilo, com qualquer que seja minha contribuição.

Aqui estou quieto, pensando em palavras bonitas para te dizer pela manhã e lembrando das tarefas que preciso atender antes que me cobre de novo.

Estou quieto, mas por dentro grito seu nome, peço a sua ajuda e suplico, grito ao universo, para que entenda a minha paz e não deixe, nem por seu segundo de insensatez, de confiar no meu amor.

Estou quieto, estou. E pensando em você.

Na verdade não sei o que sou. Se o mar ou ventania. Se amor ou destruição.

9 de mar. de 2018

Os meus primeiros passos




1, 2, 3 passinhos. Um sorriso banguela com dois dentes à mostra, cabelos curtos - enrolados apenas atrás - ao vento, e pezinhos de pão que tentam se manter firmes naquele chão frio. Ela começa a caminhar...
A felicidade é imensa, parece que descobriu outro mundo além dos colos carinhosos por onde já passou. Tem ainda a vantagem de pedir que a peguem quando suas pernas com dobras em toda parte se cansam. Mas não repousa tão fácil assim. Cansam mais os adultos, tão calejados de andar por aí. “Eles que agora corram atrás de mim”, deve pensar.
Ela está descobrindo cada sentido dessa vida e isso é uma explosão de sentimentos que nasce em meu coração. A alegria dela em mim é multiplicada em milhões de vezes, somada ao infinito e igualada a eternidade.
As mãos que a incentivam para que continue descobrindo seus passos, são as mesmas que sempre (e depois, se existir), irão acarinhar seu rosto, afagar suas lágrimas, acalmar seus medos. É um sorriso a cada passo curto. Ela começa a caminhar, tem receio, às vezes assusta, outras desembesta, pega confiança e sai andando até descobrir que o caminho é mais longo do que pensava.
Ainda não sabe o tamanho dos caminhos dessa vida. Não imagina que nem tudo aqui é feito de afago e que neste caminho que começa a descobrir terá que enfrentar pedras e espinhos. Porém, já sabe que, como agora, terá alguém para se amparar quando a dificuldade aparecer.
Os primeiros passos dela até parecem que também são os meus. Na verdade, eles são! Agora é que comecei a caminhar, andar por um sentido, passo a passo atrás de qualquer razão que possa dar a ela todo conforto, amor e carinho que um dia eu também recebi.
Pequenina, pede auxílio para não se esborrachar no chão. Eu estou lá para ajudá-la. E assim farei, até quando ela começar a caminhar sozinha.