Diria minha professora de redação da faculdade de Ciências e
Letras de Assis – Unesp: que "o texto precisa descansar". De um dia
para o outro, se necessário. Amanhã, quando o autor ler novamente sua obra, da
primeira até a última linha, vai mudar tantas vírgulas, colocar um verbo a
mais, trocar o seu título. O texto de ontem já não é mais o mesmo.
Mas não são todas as obras que têm o privilégio de colocar
as aspas para cima e deitar-se na rede, antes de perdurar pela eternidade. O
próprio Machado de Assis, o maior desse legado, publicava seus textos sem
qualquer sombra e água fresca. Lá no Diário do Rio de Janeiro, seu primeiro
jornal, reclamava (vejam só) de ter que se adequar ao tempo de fechamento da
edição, e não podia, pobre autor, descansar suas linhas.
Mas Machado era Machado. Afinal, mesmo sem qualquer trégua a
seus pensamentos, produziu as melhores obras que já vi. Fico eu então
imaginando como seriam suas crônicas e artigos, publicados diariamente no
periódico, se tivessem tido um dia ou outro de folga.
Então, convenci-me a descansar meus textos. Mas me assusto
ao vê-los um dia depois. Tiro daqui. Acrescento dali. E, se tivesse um espelho
para essas escrituras, elas não se reconheceriam.
Este texto que você lê, deixei-o na gaveta. Ficou lá por
algum tempo. Este próprio trecho aqui, acabei de acrescentar. Permiti a esta
crônica talvez um tom mais agradável. Não gosto muito da parte de teorias.
Prefiro a poesia das coisas: as cores dos ponteiros do relógio da parede, as letras
desgastadas deste teclado, a poltrona carcomida pelo tempo, que me sento para
escrever.
Verdadeiramente, meus textos precisam de descanso. Senão
eles ultrapassariam uma lauda, ficariam enormes, sem qualquer chance de um
jovem de hoje em dia apreciá-lo.
Em tempo: o primeiro parágrafo escrevi de lembranças que
tive da sala de aula. O segundo, após ler trechos de “Memorial de Aires”, o
último livro de Machado de Assis, de 1908 – ano em que ele se foi, e descansou.
