30 de dez. de 2020

As cores e as flores para um feliz ano novo

 


Vire o ano de vermelho para chamar o amor. O verde para implorar a esperança e o branco para descobrir, enfim, a paz. Esbanje o azul se quiser saúde, o dourado para cair do céu a riqueza e o amarelo para a prosperidade entrar em seu caminho. O roxo, dizem, trará mudanças à sua vida e a cor laranja te dará força e energia para enfrentar mais doze longos meses.

Todo ano é a mesma coisa. As peças do guarda-roupas condizem com suas pretensões para o próximo período e muitos acreditam fielmente que talvez o que hoje acontece aqui, tem muito do que deixamos de vestir em 31 de dezembro.

As superstições fazem parte das nossas rotinas e são importantes para ao menos impormos limites aos nossos gostos e gestos. Crendices, algumas mais afloradas, outras particulares, são necessárias.

Mas que bom seria o mundo se os outros dias contassem...

Este ano que chega, por favor, amigo leitor: use as cores de sua vida para juntos mudarmos a nossa.

Use o vermelho, mas seja uma boa pessoa – íntegra, educada, consciente – e terá o amor à sua volta. Vista o verde, mas trabalhe com dignidade, por você e pelo próximo. Assim, a esperança de um mundo melhor será tão mais concreta.

Coloque o branco, mas prometa que deixará de lado as suas inimizades, a vida é curta para tê-las: viva em paz.

Tire do armário a camisa azul, porém, cuide-se, mude sua rotina de comidas erradas, se exercite, procure um médico, leia um livro.

Pode usar uma roupa dourada, e a partir do primeiro dia do ano novo trabalhe e trabalhe. Prepare-se para exercer a sua função da melhor maneira possível. Tenha novas ideias, tire seus projetos da gaveta, confie em seu potencial.

Se quiser, vista-se do amarelo, mas procure a prosperidade em todos os seus passos, afinal, felicidade a gente conquista!

O roxo pode ser uma boa pedida, mas a transformação que você espera para o mundo precisa passar por suas pretensões. Seja você a mudança.

Na noite da virada, adote o laranja como seu tema, mas não deixe que as pedras te aflijam. Guarde todas elas e aprenda. A energia para caminhar, vem das suas atitudes.

Espero, com sinceridade, que este próximo seja um ano colorido, cheio de tudo o que esperamos e acreditamos mudar com os nossos trajes.

Que você tenha um feliz ano novo.

17 de dez. de 2020

Tempos de amores perdidos

 


Passamos por meses difíceis, e um abraço apertado nunca fez tanta falta. Os olhares distantes e de saudades, alguns de dor e angústia, representaram muito do que enfrentamos com o clichê do ‘inimigo invisível’. Nossas dores nem sempre foram compartilhadas. A compaixão à agonia do próximo, não existiu. Dias difíceis. E nunca um aperto de mão, um beijo no rosto, uma carícia de perto na pessoa que ama, fizeram tanta falta. Dias que precisam ser entendidos.

Passei por este período cheio de dúvidas. Não sabia para qual caminho olhar, em qual estrada iria correr. Saí às ruas, desertas, sentindo-me um infrator dos novos costumes. Mas precisava pensar.

Era o início dos tempos assombrosos que logo iríamos perceber. Em março todos fecharam suas portas. O comerciante perdeu a clientela e o prato de arroz e feijão ficou mais caro. O moço da banca de frutas em frente à Catedral, precisou comer o seu estoque para resistir. As crianças ficaram em casa e os pais tiveram que reaprender a divindade de serem pais. Há tempos não se via tantas brincadeiras nos quintais.

Os avós fizeram tamanha falta que, finalmente, os outros parentes se importaram com eles. Idosos ficaram em casa: não puderam ir a supermercados, ou bater perna na feira livre – que também fechou logo de cara. E muitos velhos da vida deram adeus em meio ao isolamento de seus lares. Cômodos vazios da esperança que tanto acometiam os sorrisos dos netos bagunceiros. Morreram, muitos, na cama da solidão.

Não se via mais nas praças dos bairros o movimento dos jovens com a bola de baixo do braço. As praças, apenas os moradores de rua continuaram frequentando. Sem uma vida a mais para encontrar, estes enfrentaram tamanho desafio apenas com a coragem e a habilidade de sobreviver. Para eles, os tempos sempre serão difíceis.

Ficamos todos em casa. E cansamos. Munidos de informações desencontradas sobre o que ocorria, as discussões foram aos montes. Acalorados por um momento que essa geração nunca passou, os debates em torno do assunto se tornaram frequentes. Primos brigaram e não se falam mais. Amigos de infância hoje se ignoram por conta de opiniões distintas. Casais que antes estavam se formando, não querem mais se ver.

Esse vírus, seja lá de onde for, trouxe consequências a mais do que a vida. Tirou muito do que não tínhamos e trouxe além do que precisávamos para entender a nossa existência: necessitamos sentir saudade; a falta nos ensina; os filhos carecem de atenção e os avós de cuidados.

Agora, uma luz se aproxima. Parece-me que muito em breve seremos revestidos de uma dose de remédio e poderemos voltar à rotina. A tão admirável rotina, que nos espera sentada na mesa do café, lendo o jornal diário da hipocrisia e dos tempos de amores perdidos.

11 de dez. de 2020

Minhas aulas em Teoria da Literatura

 


A disciplina de Teoria da Literatura, ministrada na Faculdade de Ciências e Letras - Unesp de Assis, me ensinou a ter paciência nestas palavras. Dizia o professor responsável pela disciplina que a calma foi amiga dos maiores autores que nós conhecemos.

Ao estudar profundamente as obras, e tantas delas, procurávamos analisar com clareza o que aquele artista queria dizer com suas palavras. Parágrafos, pontos e letras. Há cada conto tão imenso de informações que demorávamos dois ou três períodos para desvendá-los.

As aulas, sempre nas sextas-feiras, eram as mais interessantes da minha semana, certamente. Chegávamos à sala já cansados, muitas vezes com os olhos cheios de areia. Mas logo saíamos deste mundo e viajávamos a outros.

Foi uma época de aprendizado e que muito foi esclarecido a mim. A literatura, ali, passou a fazer parte de um cotidiano antes ignorado. Eu passei a conhecê-la além das obras que tanto marcaram a minha adolescência. Estudava os autores e seus filhos com tamanha dedicação que pareciam íntimos. Escrevíamos resenhas a cada semana e escolhíamos poemas ou contos para dissecar. Era uma sexta-feira daquelas.

A matéria mudou a minha rotina e o meu relacionamento com os livros. Depois das aulas nem Clarice e nem Machado passam por mim sem serem analisados. Leio seus textos imaginando como eles foram escritos. Até o barulho das teclas da máquina e a cor amarelada do papel que as canetas tinteiras versavam, eu consigo imaginar.

As coisas que eu escrevo também mudaram. Agora tenho a calma que não tinha para publicar meus textos. Deixo-os descansar por um tempo e depois mudo. Acrescento ou apago algumas letras e reviso as linhas até deixar claro o que eu quero dizer. Não tenho a pretensão de um dia ser analisado por algum docente da Teoria da Literatura. Mas vou facilitar sua vida, caso um dia o faça.

Na sexta-feira à noite, via alunos indo embora arrastando suas mochilas pesadas. Um fardo e tanto carregavam: semana puxada, pilhas de livros, leituras, responsabilidades e saudades de casa. Jovens em busca de uma formação, aventura, e literatura aos montes. Experiências que ficavam melhores com aulas tão bem elaboradas.