1 de jun. de 2021

Catador de latinhas

 


Todas as manhãs o sol aparece depois que eu abro os olhos. Acordo muito cedo, o sereno que entra pela janela me desperta para um dia cheio, como foram outros tantos. Deixo uma almofada ao lado da cama, que serve para meus joelhos não doerem enquanto agradeço ao criador por mais um período de luta – penitência dos novos tempos.

O café preto eu tomo na esquina de casa, oferecido pelo dono da confeitaria, já acostumado com os pedintes. Sou um frequentador assíduo desse lugar: um dos únicos da cidade que não me olham de baixo para cima. Talvez por costume, ou mesmo compaixão.

Dali, sigo ao meu trabalho, revirando todo o lixo das ruas atrás de um alumínio que pode comprar o jantar e quem sabe o almoço do dia seguinte.

Tempos difíceis. Os cidadãos daqui não sabem separar o reciclável do lixo comum. Até eu, que tenho só o fundamental – e olhe lá – lembro bem quando a professora de ciências explicou as maneiras corretas de descarte.

Ah, aquelas aulas são tão importantes ao meu trabalho que se eu soubesse onde viria parar, tinha aproveitado ainda mais. Às vezes me falta saber se um ou outro pedaço de plástico é reaproveitável.

Na dúvida, eu recolho. Coloco no carrinho de mão e levo ao Seu Moacir. Lá ele separa o que pretende comprar, coloca na esteira para seus funcionários fuçarem, e me deixa de canto, até aparecer depois de um tempo com a soma completa de todo o material que eu consegui pegar. Confio nos valores que me passa, afinal, fazer contas não é meu forte.

São míseros reais para ele. Mas todo dia é uma fortuna para mim.

Modéstia à parte, sou bem conhecido nessa comunidade. Ao ponto até de conversar por alguns minutos com meninos do prédio grande sem ninguém achar que estou os importunando. Se acham, nunca me disseram nada. E os meninos gostam de ouvir minhas histórias.

Um deles, teve um dia, me perguntou como vim parar nessa situação, de lixo em lixo, lata em lata, dependendo do dono do negócio não me passar a perna. Disse a ele os caminhos que já passei e as tantas oportunidades que deixei de abraçar. Me regozijei pensando que um velho catador de latinhas pudesse, em algum momento, servir de exemplo para um garoto tão bem instruído assim.

A minha vida é um drama, menino.

Como na guerra, eu vivo com medo, convivo com a dor. A paz é um estado de espírito para aqueles selecionados.

Digo ao Seu Moacir a minha frase preferida, todo santo dia: ‘Sua consciência é o seu guia’. Ele sorri.

Pego logo meu dinheiro e fujo atrás da minha marmita.

A fome é a pior artilharia dessa batalha.

E assim vou levando. Amanhã acordo, de novo, antes do sol nascer.

27 de abr. de 2021

Quando as pessoas não se abraçavam



Disse a eles: “Houve um tempo em que as pessoas não se abraçavam”. Eles ficaram estupefatos, com os olhos esbugalhados, intrigados, remoendo as minhas palavras. Eu entendia a dúvida. No meu colo, no calor de meus braços, logo pensaram não ser possível alguém viver sem uns que agasalham outros corpos.

Hoje vivemos uma vida acalorada. Aos fins de semana, cansados de tantos costumes dos outros dias, colocamos os pés pra cima na cadeira da varanda e nos divertimos com as boas histórias do folclore, desenhadas nos livros grandes de capa dura, que guardo por tantas décadas.

Na cozinha, o café preto e amargo, o leite quente, e os bolinhos de chuva temperados com açúcar e carinho já estão prontos. Logo ouvimos o canto dos pássaros e admiramos o beija-flor colorido, que vira e mexe passa por aqui. No poste da frente, o João-de-barro faz a sua obra-prima: dedica seus minutos planejando a vida junto à sua amada. E eu explico aos pequenos: não há maior poesia que a dele.

Voltamos às nossas breves histórias.

Eles querem saber como era o meu passado, e eu lembrei-me do tempo que o abraço era uma raridade.

Saíamos de casa atentos, todos de máscara escondendo nossas expressões. As ruas, que antes se movimentavam com tamanha aglomeração, eram desertas. Espaço para as folhas secas brincarem de pega-pega, livres, sem ninguém atento a pisoteá-las.

Nos caminhos, planejávamos sempre os próximos passos. Um grande cuidado para não incomodar qualquer opinião com convicções que quase sempre não eram as compartilhadas pela maioria. Víamos com grande pesar e um sentimento de impotência que antes eu não conhecia, corpos estendidos aos montes e familiares chorando a dor da saudade e da despedida que nunca chegou.

Os jornais da época estampavam as mesmas manchetes e pediam ao povo para não se abraçar.

Nunca um abraço fez tanta falta. Nunca um abraço – gesto deserto da nossa rotina – seria tão importante a qualquer ser desse mundo.

Os avós olhavam seus netos pela janela e acenavam como a um desconhecido que anda pela rua. Lacrimejando ou em prantos, os jovens, preocupados com seus velhos, respondiam distante aos gestos de carinho e abraçavam seus próprios braços, sonhando em reencontrar o conforto dos lares perdidos.

Era preciso compreender o momento.

Era preciso encontrar a paciência em Deus.

Era preciso confiar na certeza de que tudo um dia iria passar!

“Que mundo doido”, disse uma das crianças...

E eu a respondi com um longo e terno abraço apertado.

25 de jan. de 2021

O genial Machado de Assis segundo o analfabeto Felipe Neto


Me deparei no início desta semana com uma grande discussão nas redes sociais. Páginas que sigo, de escritores e suas frases e pensamentos, não publicaram obras ou textos incríveis, que comumente alegram minha semana. Mas externaram uma preocupação e incitaram uma importante discussão em nosso meio.

O chamado ‘influencer’ brasileiro Felipe Neto (33 anos, cabelo colorido e 40 milhões de seguidores) criou certa polêmica ao externar uma das maiores bobagens que li nos últimos tempos.

Em uma rede social, disse Neto que: "Forçar adolescentes a lerem romantismo e realismo brasileiro é um desserviço das escolas para a literatura. Álvares de Azevedo e Machado de Assis não são para adolescentes! E forçar isso gera jovens que acham literatura um saco".

Discorremos sobre os argumentos em diversos fóruns e grupos literários.

Sou leitor de Machado e amante de sua bibliografia. Já li várias de suas obras e reli outras tantas. Tenho aqui inúmeras crônicas, contos, poesias, matérias, notícias. Meu armário de livros reúne algumas de suas maiores criações. Também conheço Álvares de Azevedo e sua criação romântica, que mudou uma era. E posso afirmar que eles não são “um saco”.

Sei bem que as leituras destes autores, e de outros de suas épocas, precisam sim de um mínimo, sobretudo, de paixão por nossa língua. Compreendê-los quer dizer conhecer a tão necessária e magnífica mensagem que estes passam em seus versos e frases. E é por isso que entendo ser indispensável oferecer aos nossos jovens conteúdos realmente literários, voltados ao que há de mais sensato e inteligente no mundo das letras.

Há uma grande preocupação entre educadores e escritores em não deixar morrer o que temos de único. O amor à prosa nos faz entender que precisamos manter o mínimo de senso aos alunos - crianças e adolescentes. Estes, sabedores da literatura de Machado e Azevedo, de José de Alencar, Guimarães Rosa, Vinícius de Moraes, Quintana, Drummond, Clarice... serão seres humanos vivos, que poderão envolver o mundo com as palavras certas, floreadas com a nossa ficção.

Lutamos assiduamente e diariamente para que hoje, mesmo neste universo arrastado com o que não precisamos, permaneçam os gênios: aqueles que sempre irão transformar gerações através de suas obras.

Neste mundo, tão maluco e que se faz necessário discutirmos algo tão óbvio, tentamos manter a nossa literatura viva, com a certeza de que daqui a décadas e décadas, permanecerão os ‘Machados’ e os ‘Azevedos’, e vão embora os ‘Felipes’.

 

 

Kallil Dib- Jornalista

Autor do livro 50 poemas de um sonhador

MTB: 75854

18 de jan. de 2021

Foi ser feliz e sonhar

 


E então eles partiram...

Deixaram as lembranças da vida e fotos rasgadas

Num dia, um fio de esperança

Para assim o destino mudar.

 

E ele conheceu o amor, a chuva, o frio

Fez lágrimas escorrerem

Sorrisos transbordarem

E magoou seu coração.

 

Que de tão partido, vivo, insano,

Estava assim: lindo

Pois viu maravilhas, amores, enganos

E até mentiu, num desvario.

 

Sem saber o que iria encontrar até o dia amanhecer

Deixou o sol brilhar, e foi ser feliz

De uma maneira tão inocente que não sabia

E soube: era amor.

 

Quando encontrou aquele olhar

Abraçou o mundo

Sentiu um perfume doce

E a felicidade chegar

Deixou o tempo responder tudo o que sempre sonhou

Amou, viveu, mas não esqueceu o seu primeiro delírio

E partiu para o paraíso

Ser feliz e sonhar.

4 de jan. de 2021

MARIA

 



Ela tem a pele macia, a boca meiga, o sorriso divino

O olhar intenso, cabelos ao vento, menina

Minha menina

 

Linda, passos largos

Voa com o tempo

Encanta à espera de um acalanto

Um abraço apertado

 

Segura nas minhas mãos como se fosse aprender

Sabida, sincera, menina

De cores, de flores, afazeres

Deveres que ainda não tem

 

Deve ser a dona desse mundo

Sonha como gente grande que é

Tem o futuro em seus sonhos

Num travesseiro da saudade, que não quero sentir

 

Dá medo ao pensar que um dia irá voar, voar, voar

Distante, sabe-se lá pra onde

Acalma saber que levará meu coração

Que já não me pertence mais

 

Sinto-me flutuando, encontro amores confusos

Amores que antes não conhecia

Não existia

Não me concebia

 

Maria, Maria

Meu dom, uma certa magia

Uma força, que como previu o poeta,

Me alerta

Me sustenta

Me carrega

Até onde ela quiser me levar

É Maria...