Disse a eles: “Houve um tempo em que as pessoas não se
abraçavam”. Eles ficaram estupefatos, com os olhos esbugalhados, intrigados,
remoendo as minhas palavras. Eu entendia a dúvida. No meu colo, no calor de
meus braços, logo pensaram não ser possível alguém viver sem uns que agasalham
outros corpos.
Hoje vivemos uma vida acalorada. Aos fins de semana,
cansados de tantos costumes dos outros dias, colocamos os pés pra cima na
cadeira da varanda e nos divertimos com as boas histórias do folclore,
desenhadas nos livros grandes de capa dura, que guardo por tantas décadas.
Na cozinha, o café preto e amargo, o leite quente, e os
bolinhos de chuva temperados com açúcar e carinho já estão prontos. Logo
ouvimos o canto dos pássaros e admiramos o beija-flor colorido, que vira e mexe
passa por aqui. No poste da frente, o João-de-barro faz a sua obra-prima: dedica
seus minutos planejando a vida junto à sua amada. E eu explico aos pequenos:
não há maior poesia que a dele.
Voltamos às nossas breves histórias.
Eles querem saber como era o meu passado, e eu lembrei-me do
tempo que o abraço era uma raridade.
Saíamos de casa atentos, todos de máscara escondendo nossas
expressões. As ruas, que antes se movimentavam com tamanha aglomeração, eram
desertas. Espaço para as folhas secas brincarem de pega-pega, livres, sem
ninguém atento a pisoteá-las.
Nos caminhos, planejávamos sempre os próximos passos. Um
grande cuidado para não incomodar qualquer opinião com convicções que quase
sempre não eram as compartilhadas pela maioria. Víamos com grande pesar e um
sentimento de impotência que antes eu não conhecia, corpos estendidos aos
montes e familiares chorando a dor da saudade e da despedida que nunca chegou.
Os jornais da época estampavam as mesmas manchetes e pediam
ao povo para não se abraçar.
Nunca um abraço fez tanta falta. Nunca um abraço – gesto
deserto da nossa rotina – seria tão importante a qualquer ser desse mundo.
Os avós olhavam seus netos pela janela e acenavam como a um
desconhecido que anda pela rua. Lacrimejando ou em prantos, os jovens,
preocupados com seus velhos, respondiam distante aos gestos de carinho e
abraçavam seus próprios braços, sonhando em reencontrar o conforto dos lares
perdidos.
Era preciso compreender o momento.
Era preciso encontrar a paciência em Deus.
Era preciso confiar na certeza de que tudo um dia iria
passar!
“Que mundo doido”, disse uma das crianças...
E eu a respondi com um longo e terno abraço apertado.
