Em histórias contadas a gente muda o mundo. Muda as pessoas que aparecem lá e muda até as flores que se destacam nos jardins. Colocamos cores nelas, muitas cores. E as regamos conforme a nossa paciência. As flores, nas histórias, têm vida eterna e são comparadas com sentimentos, também eternos. Tudo muda com o poder de uma história.
Como aconteceu certa vez com o Senhor de terno e gravata que
morava trancafiado dentro de sua enorme casa, cercada de seguranças por todos
os cantos. O homem era muito sério e não dava bom dia nem ao motorista. Era
sozinho, ou melhor, era casado com seu trabalho.
Ali ao lado se encontrava um garoto sonhador, metido a sabichão.
Ele ficava admirado pelo tamanho daquela casa, e mais fascinado por nunca ter visto
nem sequer o rosto do morador da tal mansão. Certa vez, em sua escola, uma das
atividades sugeridas pela professora era descrever em detalhes o teu vizinho. O
garoto nem pestanejou. E começou a escrever uma história contando em detalhes
como era a vida de seu vizinho.
Mas como escrever uma história contando realmente como eram
os passos do morador daquele casarão, se nem sequer passos ele dava? A
imaginação do contador de histórias se aflorou, e por incrível que pareça o tal
vizinho ganhou uma vida que ele sempre sonhou em ter.
O menino resolveu colocar uma cópia de sua história na caixa
de correio do vizinho, com a esperança de que ele, ao ler a fábula,
compreendesse o que aquelas palavras queriam dizer. O Senhor leu o que o garoto
havia escrito. Então, a partir deste dia, resolveu pelo menos conhecer a sua
vizinhança.
A história descrita pelo garoto dizia:
“Meu vizinho é legal,
e sempre conversamos quando eu tenho tempo. Ele está sempre cercado de amigos
que andam de preto, e aparece toda manhã com um sorriso no rosto andando pelas
ruas do bairro. O meu vizinho me conta as suas peripécias de quando era criança
e é um bom contador de histórias. Meu vizinho compra pão toda manhã e se
estiver quentinho, ele da um trocado ao padeiro. Meu vizinho é legal... Mas às
vezes eu acho ele meio calado, deve ser porque ele nunca leu uma história que
valesse a pena.Pode ser porque ele ainda não recebeu um abraço sincero, ou
talvez ele nunca regou as flores do seu jardim”.
Ao corrigir a redação do menino, a professora, que sabia
onde o garoto morava e conhecia bem o homem que vivia naquela mansão, rabiscou
a folha com os dizeres: “nota 10 pela imaginação...” e completou: “melhorar a
letra”.

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Obrigado, volte sempre att.Kallil Dib