14 de ago. de 2019

A mentira contada por um menino de 8 anos

 

“Chorei ao perceber que era fome”, disse a professora do menino de 8 anos que desmaiou em plena sala de aula em uma escola municipal do nordeste brasileiro. O garoto percorre todos os dias mais de 30 quilômetros para chegar à unidade escolar. Sai de casa quando o sol ainda não apareceu e volta quando ele já se despediu.

A fome é um costume que o acompanha no duro caminho das estradas de terra. Vai com a mochila e o caderno que ganhou do governo no ano passado. Caderno de cem folhas, que exibe na capa o slogan ‘Pátria Educadora’. Sandália de dedo, short azul e camisa branca esgarçada.

Chega à escola cansado, da rotina e de seus passos, mas espera pela merenda, que na verdade é um lanche com pão e manteiga, fornecido por volta das 15h30, no recreio das aulas da tarde. A sua última refeição tinha sido um prato de mingau de fubá, comido no dia anterior, que não o sustentou.

Sentiu dores no peito. Suas pernas e mãos tremiam, enquanto as lágrimas incontroláveis desciam por seu rosto. Desmaiou.

Os médicos foram chamados e atenderam logo ao pedido de socorro. Ao chegarem, encontraram um menino caído no chão. O examinaram rapidamente e deram o diagnóstico que ninguém havia cogitado por ali: era fome.

"A gente se sentiu impotente. Como uma criança desmaia de fome?", completou a educadora.

BRASÍLIA — Durante café da manhã com jornalistas estrangeiros no Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro afirmou ser uma “mentira” dizer que existe fome no Brasil.

Sim, parece invenção de escritor metido a contar fantasias, mas acredite, são fatos: a história do menino que desmaiou de fome e a inexplicável fala do nosso presidente da República.

 

8 de ago. de 2019

Assinado, Isabella

Hoje eu tenho 16 anos. E daqui vejo que meu lugar foi preenchido pela tristeza. Quando eu nasci, você sorriu. Se orgulhou, me chamou de filha, de meu amor, minha princesa. Minha mãe, de rainha. Agradeceu aos céus com lágrimas nos olhos.

Depois tudo foi mudando...

Aos poucos parou de me levar ao parquinho, disse que trabalhava demais e não tinha tempo para bobagens. Eu entendia. Ficava triste, não vou mentir, mas nunca duvidei da sua dedicação.

Lembro quando chegava em casa tarde da noite e trazia um presente. Algumas vezes um chocolate, outras uma boneca ou apenas um beijo e um abraço apertado, que me confortavam. Contava histórias para eu dormir. E eu dormia como o anjo que virei.

Mas as coisas foram mudando...

Não insisti quando você decidiu se separar da minha mãe. Inocente, gostei da ideia de ter duas casas. Na primeira semana, adorei a novidade. Mas na outra tudo já era assustador.

Eu sentia aos poucos você separando nossos mundos...

Eu juro que tentei te deixar perto de mim. Pedi para você me levar à escola, o caminho de ida volta era suficiente para ficarmos juntos, mas você não quis. No outro dia pedi um sorvete, você não ouviu. Chorei para você enxugar minhas lágrimas, mas não fez. Na verdade, eu pedia apenas um pouco de amor, que você não pôde dar.

Eu não queria ser um problema que me tornei na sua vida. Hoje, aqui, depois de tudo que me fez, não consigo mensurar a dimensão da minha desilusão. Se aquele dia você pedisse para eu ir embora, pai, eu iria.

Eu sei o tamanho da tristeza que carrega em seu peito e conheço a escuridão em que se transformou a sua vida. A minha rotina, se agora, onze anos depois, deseja saber, é de anjo. Que sorri como a única coisa que aprendi em minha estada por aí e que chora por não ter tido alguém para chamar de pai.

Celebre seu dia e não se esqueça de mim.

Sua filha.

 

O texto é uma crônica de ficção, escrita com base na notícia: “Condenado pela morte da filha Isabella Nardoni, Alexandre Nardoni deixou, na manhã desta quinta-feira (8), o pavilhão 2 do complexo de Tremembé (SP), devido à saída temporária de Dia dos Pais. Ele foi condenado a 31 anos de prisão, em março de 2008, após ter asfixiado e jogado Isabella do 6º andar de seu apartamento”, publicada em 08/08/2019.