20 de mai. de 2020

Vou esperá-la na janela da minha casa

 

Me seguraram aqui e agora não posso ir até a praça da outra rua, como eu fazia a cada manhã. Fecharam as portas, passaram cadeado. Tem um vírus fatal andando por aí e não há qualquer solução imediata para enfrentá-lo. Ele prefere os mais velhos e o medo, por enquanto, é o melhor remédio.

Na praça, sentado sempre naquele banco da direita, marrom desbotado, eu via o mundo passar. Ali, quase no centro da cidade, via o pipoqueiro chegar cedo e o vendedor de uvas amanhecer. A banca de jornais abria um pouco tarde para quem gosta de receber notícias frescas (e perdeu sua clientela). Via também as pessoas desesperadas pelas horas, indo trabalhar apressadas todo santo dia.

Na padaria, o mesmo homem de chapéu amarelado e barbas a fazer, pedia sempre o mesmo café: sem açúcar e com duas gotas de adoçante, dica do seu doutor para aliviar a diabetes atacada. Na outra ponta do balcão, um jovem rapaz que acordava só após um misto quente sem tomate e um suco de laranja açucarado. Era sempre o mesmo cardápio.

Sentado naquele banco gelado, via o morador de rua acordar. Ele dormia amontoado com seus amigos embaixo da marquise da igreja central. Abria os olhos depois de uma madrugada friorenta e de sonhos enormes, logo contidos pela realidade de pedir uma moeda ou outra na porta do banco federal, um desespero sem fim.

Estou aqui nessa poltrona, lembrando da praça que eu tanto gostava de ir. Penso até nos pombos que eu alimentava com uns grãos de milho, aborrecendo o dono da barraca de cartões que vivia amedrontado pela doença que os pobres voadores podem causar. Dizia ele que os pombos eram a ‘praga da humanidade’. Não duvido se quando eu o ver novamente ouvi-lo dizer que as aves são as causadoras de toda essa desgraça. Vai saber se ele, por todo este tempo, não tinha razão...

Um dos problemas de ficarmos isolados é exatamente este: vivemos empenhados em criar teorias fascinantes sobre o que pode ter acometido um mundo tão tecnológico e desenvolvido como o nosso. O que será que foi capaz de nos trancafiar em nossas próprias rotinas?!

Quanta saudade dos meus costumes.

Mas a saudade que aperta mesmo é daquela moça que quando a conheci tinha cabelos longos, negros e enrolados. Olhos pretos grandes, que engoliam todo o meu sentimento. Pele morena do sol. Mãos macias feito as nuvens. Jeito de me agradar com cada gesto de afeto.

Não posso mais acordá-la para irmos alimentar os pombos. Esse vírus, que nem sequer consigo encarar, a levou.

Mas hoje eu vou encontrá-la da única maneira que meus filhos e netos me ordenaram a fazer.

Vou ver o pôr do sol.

Da janela da minha casa.

 

Crônica de Kallil Dib, a partir da notícia: ‘Após 57 anos de casamento, idoso tenta superar perda da mulher que morreu com Covid-19’, de 28/04/2020.

7 de mai. de 2020

Triste dia de outono

Quem me conhece sabe: eu sempre procuro, primeiro, ver o lado bom das coisas. Quando me acontece alguma fatalidade, me acomete o medo ou me intriga a realidade, eu sento, converso com meu Deus e reflito, reflito, reflito... até encontrar um caminho que seja ao menos próspero e distante da calamidade que impera. Essa maneira de pensar e agir me faz encarar dificuldades tão difíceis que talvez eu não conseguiria enfrentar de outra maneira.

Já faço isso há algum tempo. Costumo guardar sentimentos. Não exteriorizo minhas dores, não choro para não fazer ninguém chorar. Guardo minhas mágoas e preocupações e procuro perdoá-las enquanto elas não me fazem mal.

Costumo demonstrar, com franqueza, um sorriso no rosto para aqueles que me querem bem. Amigos sinceros de longa data, colegas que nos aconselham como a alguém próximo e familiares que nos conhecem como a si mesmos. Estes ganham minha eterna felicidade.

Tem dias que tudo parece ao contrário. Naquele, o sol nem quis aparecer: surgiu por algumas horas e logo se deitou novamente. O café ficou tão fraco que parecia me avisar. O coração já estava apertado antes mesmo de conhecer o seu luto. Era um dia para não ser.

Eu não queria, mas preciso escrever sobre isto.

A escrita, já há algum tempo, faz parte dos meus preceitos. Muitas vezes é a principal (e nesse caso a única), maneira de eu tirar do meu peito palavras que eu queria gritar pro mundo. Isso começou ainda na adolescência, lá pros 15, quando um papel de pão se transformava em um diário.

Hoje, atendendo a uma obrigação profissional, eu deveria escrever uma crônica para publicação nos periódicos costumeiros. Resolvi terminar essa aqui, que comecei a anotar há uma semana, naquele triste dia de outono.

Jamais me faltaram palavras. Sou até um bom conselheiro, ofereço sempre um ombro amigo, um lugar aconchegante para o pranto de alguém. Não vejo problemas em afagar lágrimas, sinto-me especial, um útil servo. Mas naquela manhã eu não fui uma boa companhia. Não encontrei qualquer expressão de alívio.

Agora os pensamentos já estão alinhados.

Já procurei e encontrei um propósito, conversei com Deus, do meu jeito, e ele me acalmou: me deu a paciência e a serenidade que naquela hora eu perdi.

Apenas quem já passou por um momento deste, sabe o quanto é difícil superá-lo. Preciso continuar. Seja lá qual for a minha tristeza, muita gente precisa da minha alegria.

Era um pequenino coração...

Que parou de bater num triste dia de outono.